O estado norte-americano do Minnesota prepara-se para viver esta sexta-feira um dia de paralisação alargada, com a realização da greve geral “ICE Out of Minnesota: Day of Truth & Freedom”, uma iniciativa que conta com o apoio de sindicatos, líderes religiosos progressistas, legisladores democratas e activistas comunitários.
Os promotores da ação apelam a que os residentes do Minnesota fiquem em casa, se abstenham de trabalhar, frequentar a escola e realizar compras, suspendendo deliberadamente o funcionamento normal da economia como forma de protesto contra a presença de agentes federais de imigração no estado.
O que significa uma greve geral
Uma greve geral consiste numa paralisação laboral simultânea em vários sectores da economia, com o objectivo de interromper a actividade económica para pressionar mudanças políticas ou sociais. Embora este tipo de protesto seja raro nos Estados Unidos contemporâneos, teve um papel relevante na história do país e continua a ser utilizado com maior frequência em vários países europeus.
No caso do Minnesota, os organizadores sublinham que a greve geral foi concebida como um dia de reflexão não violenta, associado a um protesto cívico de grande escala.
Protesto motivado por morte atribuída a agente federal
A iniciativa surge no contexto da morte de Renee Good, alegadamente causada pelo agente federal Jonathan Ross. Os organizadores referem este caso como central para a mobilização e defendem a necessidade de uma resposta política imediata.
No site oficial da iniciativa, os promotores afirmam que “é tempo de suspender a ordem normal dos negócios para exigir a cessação imediata das acções do ICE no Minnesota, responsabilização dos agentes federais que causaram perda de vidas e abusos contra residentes do estado, e apelar ao Congresso para que intervenha de forma imediata”.
Manifestações marcadas para Minneapolis
Além da paralisação económica, está prevista uma marcha e concentração no centro de Minneapolis, com início marcado para as 14:00 locais desta sexta-feira. A cidade deverá tornar-se o principal palco das manifestações, reunindo milhares de pessoas sob palavras de ordem contra o ódio e a exclusão.
Uma das mensagens mais repetidas nas mobilizações recentes associadas ao movimento tem sido: “No hate, no fear, immigrants are welcome here” (“Sem ódio, sem medo, os imigrantes são bem-vindos aqui”).
Mais de 100 estabelecimentos anunciam encerramento
Segundo informação recolhida pelos organizadores e por meios de comunicação locais, mais de 100 empresas, restaurantes e cooperativas da região das Twin Cities anunciaram já que irão encerrar portas durante a sexta-feira, em solidariedade com a greve geral.
Este número poderá ainda aumentar nas próximas horas, à medida que mais estabelecimentos confirmem a adesão à iniciativa.
Minneapolis e o precedente histórico de 1934
A escolha de Minneapolis como epicentro do protesto tem também um forte simbolismo histórico. A cidade foi palco, há quase um século, de uma das mais marcantes greves gerais da história dos Estados Unidos.
Em 1934, trabalhadores do sector dos transportes, organizados no sindicato Teamsters Local 574, lançaram uma greve num contexto em que Minneapolis era maioritariamente uma cidade sem sindicatos, devido à influência de um grupo patronal conhecido como Citizens Alliance.
Apesar de contar com cerca de 5.000 membros, o sindicato não era reconhecido por muitas empresas. A 16 de Maio de 1934, os trabalhadores avançaram com uma greve exigindo reconhecimento sindical, aumentos salariais e redução do horário de trabalho. Armazéns, depósitos de carvão e transportes foram organizados, levando à paralisação quase total da zona industrial da cidade.
O conflito atingiu o ponto mais violento a 20 de Julho de 1934, quando a polícia abriu fogo sobre trabalhadores em piquete, atingindo 67 pessoas, na maioria pelas costas, e provocando duas mortes. Cerca de 100 mil pessoas participaram no cortejo fúnebre de um dos trabalhadores mortos.
Perante a escalada da violência, o governador ordenou a intervenção da Guarda Nacional, e a Citizens Alliance acabou por aceitar as reivindicações sindicais, num desfecho considerado uma vitória histórica do movimento laboral.
Atualmente, as greves gerais são raras nos Estados Unidos, não apenas pela complexidade da coordenação entre sectores, mas também devido a restrições legais e judiciais impostas ao longo de décadas, que limitaram significativamente o poder de mobilização dos sindicatos.
Entre os exemplos mais marcantes do século XX contam-se a Greve Geral de Seattle, em 1919, que paralisou uma cidade com 315 mil habitantes, e a Greve Geral de Oakland, em 1946, que envolveu cerca de 130 mil trabalhadores e suspendeu a actividade económica em toda a região.
A greve geral “ICE Out of Minnesota” surge, assim, como um acontecimento invulgar no panorama político e social norte-americano actual, com potencial impacto simbólico e mediático a nível nacional.














