Governo dos EUA vai passar a financiar organizações de extrema-direita na Europa

O Governo dos Estados Unidos prepara-se para financiar think-tanks e organizações de caridade alinhadas com o movimento político Maga (Make America Great Again) em vários países europeus, com o objetivo de divulgar posições políticas de Washington e combater o que considera ameaças à liberdade de expressão.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 6, 2026
12:32

O Governo dos Estados Unidos prepara-se para financiar think-tanks e organizações de caridade alinhadas com o movimento político Maga (Make America Great Again) em vários países europeus, com o objetivo de divulgar posições políticas de Washington e combater o que considera ameaças à liberdade de expressão.

A iniciativa, promovida pelo Departamento de Estado norte-americano, insere-se nas comemorações do 250.º aniversário da independência dos EUA, previstas para este ano, e deverá concentrar apoios financeiros em projetos sediados em cidades como Londres, Paris, Berlim e Bruxelas.

Segundo três fontes com conhecimento direto do processo, citadas no texto original, os fundos destinam-se a apoiar organizações conservadoras e redes próximas da direita populista europeia.

No centro desta estratégia está Sarah Rogers, alta responsável do Departamento de Estado e subsecretária para a diplomacia pública, que viajou pela Europa em dezembro.

Durante essa deslocação, reuniu-se com think-tanks de direita considerados influentes e manteve conversações com figuras do partido populista britânico Reform UK, liderado por Nigel Farage, sobre a possibilidade de mobilizar verbas para difundir aquilo que descreveu como “valores americanos”.

A viagem passou por Londres, Paris, Roma e Milão, numa digressão que a própria designou como “freedom of speech tour” (digressão pela liberdade de expressão).

Numa publicação na rede social X, Rogers afirmou que iria “destacar a excelência americana enquanto damos início ao America250 com os nossos aliados mais próximos”, numa referência às celebrações da independência dos EUA.

Estratégia pode causar tensão com aliados europeus
A decisão é suscetível de provocar desconforto entre governos aliados de Washington, sobretudo executivos de centro-esquerda, como o governo trabalhista britânico, que poderão ver estes financiamentos como uma tentativa de influenciar ou minar políticas nacionais.

Um responsável norte-americano citado no texto original descreveu o programa como uma adaptação de iniciativas anteriores do Departamento de Estado, que já canalizavam verbas para causas específicas no estrangeiro.

No entanto, este novo esforço surge num momento em que a administração Trump reduziu drasticamente a ajuda externa dos EUA, cortando sobretudo em programas de apoio à boa governação, aos direitos humanos e à democracia.

Críticas às leis digitais europeias
A ofensiva diplomática acontece também num contexto de crescente tensão entre Washington e várias capitais europeias.

A estratégia de segurança nacional norte-americana, divulgada no ano passado, apelava a “cultivar resistência” face ao rumo político da Europa e alertava que a migração em massa e a “censura da liberdade de expressão” poderiam conduzir a uma “erosão civilizacional”.

A administração Trump tem criticado particularmente as tentativas europeias de regular conteúdos online, incluindo plataformas tecnológicas norte-americanas.

De acordo com o mesmo responsável, Rogers está a visar diretamente duas legislações, a Lei de Segurança Online do Reino Unido e o Regulamento dos Serviços Digitais da União Europeia

Apesar das diferenças entre ambos, Washington encara-os como “esquemas regulatórios fundamentalmente direcionados contra os Estados Unidos”, que, no entendimento da administração, atacam a liberdade de expressão, a indústria americana e a independência do setor tecnológico.

Ligações ao Reform UK e cautelas políticas
Elementos seniores do Reform UK confirmaram contactos com Rogers. Um deles afirmou que “a administração norte-americana está numa cruzada para salvar a Europa” e acrescentou que Washington “tem um carinho especial pelo Reino Unido, mas sente que está sob ameaça de forças obscuras que se estão a espalhar pela Europa”.

Outro dirigente referiu ter sido informado de que Rogers “tinha um fundo do Departamento de Estado para pôr coisas ao estilo Maga a funcionar em vários locais”, acrescentando que a responsável estaria interessada em “financiar organizações europeias para minar políticas governamentais”.

Contudo, dentro do próprio partido existe prudência quanto a uma aproximação excessiva à agenda Maga. Segundo os mesmos responsáveis, há receio de custos políticos, já que Donald Trump é amplamente impopular no Reino Unido. Dados do rastreador da YouGov indicam que apenas cerca de 16% dos britânicos têm uma opinião favorável do presidente norte-americano, enquanto 81% manifestam uma perceção negativa.

“Há perigos políticos para nós se ficarmos demasiado alinhados com os EUA”, reconheceu um dos dirigentes.

Departamento de Estado rejeita acusação de “fundo secreto”

Questionado sobre o programa, um porta-voz do Departamento de Estado rejeitou a ideia de que se trate de um “fundo secreto”.

Segundo a entidade, trata-se de “um uso transparente e legal de recursos para promover interesses e valores dos EUA no estrangeiro”, classificando a descrição como “slush fund” como “completamente falsa”.

O mesmo porta-voz sublinhou ainda: “O trabalho da subsecretária Rogers é apoiar os objetivos americanos. Não somos tímidos quanto a isso. Cada subsídio é totalmente divulgado e sujeito a prestação de contas.”

Durante a passagem por Londres, Rogers discursou num evento organizado pelo think-tank conservador Prosperity Institute.

Nesse discurso, criticou duramente a Lei de Segurança Online britânica, descrevendo-a como “tirânica e absurda” e inserida num “emaranhado de leis [na Grã-Bretanha] que têm estes efeitos censórios”.

Acrescentou ainda que “é claro que o britânico médio quer ser uma pessoa livre, quer viver num país livre”, sustentando que “os resultados que o Reform UK está a obter são prova positiva de que o público britânico não está satisfeito com este regime”.

Segundo a responsável, pretende ajudar o país a recuperar o direito à liberdade de expressão.

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