A União Europeia reúne-se hoje em Copenhaga para uma cimeira decisiva marcada pela crescente pressão de ameaças externas e internas. O encontro dos líderes europeus decorre num momento em que, segundo analistas, o bloco enfrenta uma transformação profunda — uma mudança que poderá marcar o fim do conceito tradicional da União Europeia tal como era conhecida até agora.
No centro da agenda estão as provocações crescentes de Vladimir Putin e a instabilidade política provocada pelo isolamento de Donald Trump, factores que estão a levar a União Europeia a repensar as suas estruturas de defesa e segurança.
“Esta cimeira é uma prova evidente de que a União Europeia que conhecíamos já não existe. Estamos perante uma redefinição profunda do bloco”, afirmou um responsável europeu citado pelo jornal Politico.
Os riscos que cercam o encontro em Copenhaga são palpáveis. Recentemente, caças russos invadiram o espaço aéreo da NATO, levando Trump e vários líderes europeus a manifestar apoio à ideia de abatimento imediato dessas aeronaves. Para agravar a tensão, o aeroporto de Copenhaga sofreu interrupções significativas na semana passada devido a uma incursão de drones — descrita pela Dinamarca como um “ataque híbrido”.
Neste contexto, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia e antiga ministra da Defesa da Alemanha, apelou a uma discussão sem precedentes sobre as capacidades militares da UE. Entre as propostas estão a criação de um “muro de drones” — um sistema destinado a detectar, rastrear e neutralizar drones — e novos mecanismos para responder rapidamente a violações do espaço aéreo europeu.
“A tarefa de enviar caças é da NATO. A da UE é estar pronta para responder, aumentar a nossa prontidão e reforçar capacidades comuns diante de uma ameaça comum”, declarou um alto responsável da UE ao Politico.
A reunião em Copenhaga é a primeira desde junho, depois de um breve período de otimismo gerado pelo encontro entre Trump e Putin no Alasca. Porém, o cenário voltou a degradar-se, impondo à UE decisões urgentes. Uma segunda cimeira está marcada para Bruxelas no final de outubro, onde se espera formalizar medidas sobre o reforço das defesas e o apoio financeiro à Ucrânia.
No entanto, o consenso quanto à resposta a Moscovo esbarra em divergências profundas entre os Estados-membros. A prioridade comum é evitar uma escalada que possa conduzir a uma guerra total, mas a forma de financiamento e a dimensão desse reforço militar dividem os líderes.
“O desafio é encontrar um equilíbrio entre dissuasão e gestão de riscos, para evitar que incidentes se transformem em conflito”, alerta Rafael Loss, investigador do European Council on Foreign Relations.
Enquanto alguns países como Hungria e Eslováquia acolhem positivamente recursos adicionais para armamento e treino, outros — incluindo Espanha, Países Baixos, Suécia e Alemanha — manifestam reservas quanto ao financiamento extra, especialmente em contexto de orçamentos nacionais pressionados.
Autoridades militares insistem que a Europa já enfrenta uma “guerra de baixa intensidade” com a Rússia. Para alguns, reforçar a capacidade militar europeia exige investimento substancial. Ursula von der Leyen propõe um “empréstimo de reparação” de 140 mil milhões de euros, financiado por ativos russos congelados desde o início da guerra na Ucrânia em 2022.
A proposta enfrenta oposição, nomeadamente do primeiro‑ministro húngaro Viktor Orbán, que bloqueia a confiscação desses ativos. A Comissão Europeia pretende, contudo, excluir a Hungria do processo decisório, levando o tema para discussão hoje em Copenhaga, com decisão final prevista para Bruxelas no final de outubro.
“O objetivo é reunir apoio suficiente para isolar Orbán. Estamos numa zona cinzenta”, admitiu um diplomata europeu.














