A ficção pode ser assustadora, mas a ciência da natureza tem-se revelado ainda mais perturbadora. Nos últimos meses, investigadores descobriram fungos que transformam formigas em zumbis, aranhas que usam cadáveres luminosos como armadilha e vermes que atravessam a pele humana sem dor. Como destaca o site ‘ZME Science’, são fenómenos reais, documentados em estudos científicos recentes, que revelam o lado mais sombrio e engenhoso da vida na Terra.
Um verme que penetra sem ser sentido
O parasita Schistosoma mansoni é capaz de atravessar a pele humana sem provocar dor ou comichão — e fá-lo suprimindo os neurónios responsáveis por transmitir sinais de alerta ao cérebro. A descoberta foi publicada em agosto na revista ‘The Journal of Immunology’, demonstrando como o verme bloqueia a resposta nervosa para invadir o organismo de forma quase invisível.
A infeção ocorre geralmente em contacto com águas contaminadas, e mesmo um breve mergulho pode bastar. Uma vez no corpo, o parasita viaja pela corrente sanguínea, afetando o sistema imunitário. Os cientistas acreditam, no entanto, que compreender este mecanismo poderá abrir caminho a novos analgésicos naturais e alternativas aos opioides.
Aranhas que sacrificam patas e não perdem velocidade
Perder uma perna seria uma tragédia para qualquer ser humano, mas para uma tarântula é apenas um contratempo. Um estudo publicado no ‘Journal of Experimental Biology’ mostrou que, após perder duas patas, as tarântulas readaptam o seu estilo de corrida em menos de 24 horas, mantendo a mesma velocidade.
Os investigadores analisaram mais de 40 mil imagens de vídeo e concluíram que os aracnídeos desenvolvem novos padrões de movimento quase instantaneamente, sem necessidade de reaprendizagem. É uma demonstração notável da plasticidade e da resiliência destes predadores.
O fungo zumbi que domina insetos há milhões de anos
Muito antes de ‘The Last of Us’, um fungo real já transformava insetos em criaturas controladas. O Ophiocordyceps, capaz de manipular formigas e outros insetos, existe há cerca de 100 milhões de anos, segundo fósseis analisados por investigadores.
O estudo identificou o fungo Paleoopyocordyceps brotando de corpos fossilizados de formigas e moscas, revelando que este comportamento macabro é quase tão antigo quanto os próprios insetos. Nas formigas atuais, o fungo invade o cérebro e os músculos, obrigando o hospedeiro a subir a locais altos antes de morrer — um gesto final que garante a propagação dos esporos.
Aranhas que transformam pirilampos em isco
Em Taiwan, cientistas observaram a aranha Psechrus clavis a usar pirilampos brilhantes como armadilhas vivas. Em vez de os devorar imediatamente, mantém-nos presos nas teias, aproveitando a luz bioluminescente para atrair outros pirilampos — machos desavisados que acabam também capturados.
Os testes laboratoriais confirmaram um aumento significativo nas presas apanhadas quando o brilho era mantido. É uma forma de engano cruel, mas eficaz, no universo da caça noturna.
Morcegos que escolhem as presas pelo som
O morcego-de-lábios-franjados (Trachops cirrhosus), estudado na Costa Rica, consegue distinguir entre sapos venenosos e comestíveis apenas pelo coaxar. A equipa do Smithsonian descobriu que os morcegos jovens aprendem esta habilidade por tentativa e erro, enquanto a perceção do tamanho da presa é inata.
Tal como as crianças humanas, os morcegos precisam de prática para aperfeiçoar a sua audição seletiva — uma demonstração impressionante de aprendizagem sensorial no reino animal.
Estruturas misteriosas dentro do corpo humano
Entre as descobertas mais intrigantes está a identificação de estruturas de RNA desconhecidas, apelidadas de “obeliscos”. Encontradas em cerca de metade dos microbiomas humanos, estas formas alongadas não são vírus nem bactérias, e a ciência ainda não sabe o seu papel. Foram descritas pela primeira vez em novembro de 2024, com mais de 30 mil exemplos registados.
Os investigadores admitem que estas entidades microscópicas “não se parecem com nada que já tenhamos visto”, o que torna o mistério ainda mais profundo.
Estas descobertas lembram que o terror na natureza é, na verdade, sinónimo de adaptação. Cada comportamento bizarro ou invasão parasitária é uma resposta evolutiva a um desafio de sobrevivência. A ciência, como lembra o ‘ZME Science’, continua a revelar que a vida na Terra é mais engenhosa — e mais inquietante — do que qualquer história de ‘Halloween’.









