Finlândia ensina crianças a partir dos 3 anos a identificar deepfakes e desinformação gerada por IA

A Finlândia está a reforçar o seu já consolidado modelo de literacia mediática, integrando agora o ensino da inteligência artificial (IA) nos currículos escolares, com o objectivo de preparar crianças desde os três anos de idade para reconhecer conteúdos falsos, incluindo deepfakes e notícias fabricadas digitalmente.

Pedro Gonçalves
Janeiro 5, 2026
12:49

A Finlândia está a reforçar o seu já consolidado modelo de literacia mediática, integrando agora o ensino da inteligência artificial (IA) nos currículos escolares, com o objetivo de preparar crianças desde os três anos de idade para reconhecer conteúdos falsos, incluindo deepfakes e notícias fabricadas digitalmente. A informação é avançada pela Euronews em colaboração com a Associated Press.

A aposta surge numa altura em que a proliferação de conteúdos manipulados por IA se intensifica no espaço digital, obrigando o sistema educativo finlandês a adaptar-se a uma nova geração de riscos informativos, num país que há décadas investe na resistência à desinformação.

Há vários anos que a Finlândia integra no seu currículo nacional competências ligadas à análise crítica dos media, ensinando os alunos a interpretar diferentes formatos de informação e a reconhecer conteúdos enganosos. Este ensino começa logo no pré-escolar, abrangendo crianças a partir dos três anos.

Este modelo faz parte de um programa nacional de combate à desinformação, concebido para tornar a população mais resistente à propaganda e a narrativas falsas, especialmente num contexto geopolítico marcado pela proximidade com a Rússia, ao longo de uma fronteira terrestre de cerca de 1.340 quilómetros.

Inteligência artificial passa a ser competência essencial
Nos últimos anos, os professores passaram a ter a responsabilidade de acrescentar a literacia em IA às matérias já leccionadas, uma necessidade que se tornou mais evidente após a intensificação das campanhas de desinformação russas na Europa, na sequência da invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada há quase quatro anos.

A adesão da Finlândia à NATO, em 2023, agravou as tensões com Moscovo, apesar de as autoridades russas negarem qualquer interferência nos assuntos internos de outros países.

Para Kiia Hakkala, especialista pedagógica da Câmara Municipal de Helsínquia, a literacia mediática é uma competência cívica fundamental. “Achamos que ter boas competências de literacia mediática é uma capacidade cívica muito importante”, afirmou, sublinhando que esta preparação é “essencial para a segurança do país e para a segurança da nossa democracia”.

Aprender a distinguir factos de ficção em sala de aula
Na Escola Primária de Tapanila, num bairro tranquilo a norte de Helsínquia, o professor Ville Vanhanen lecciona aulas dedicadas à identificação de notícias falsas. Num desses momentos, um ecrã exibe o desafio “Facto ou ficção?”, enquanto os alunos avaliam a veracidade da informação apresentada.

Ilo Lindgren, aluno do quarto ano, admite que a tarefa nem sempre é simples. “É um bocadinho difícil”, reconheceu o estudante de dez anos. Segundo o professor, os alunos já trabalham este tipo de conteúdos há vários anos, começando por analisar títulos e pequenos textos.

Numa aula recente, os alunos foram desafiados a identificar cinco critérios essenciais para avaliar se uma notícia online é fiável. Actualmente, o foco está também em aprender a reconhecer imagens e vídeos criados por inteligência artificial, uma competência que, segundo Vanhanen, se está a tornar indispensável. “Estamos a estudar como reconhecer se uma imagem ou um vídeo foi criado por IA”, explicou o docente, que é também subdirector da escola.

Os próprios meios de comunicação social finlandeses participam activamente neste esforço educativo. Todos os anos é organizada a “Semana do Jornal”, durante a qual jornais e conteúdos noticiosos são distribuídos a jovens estudantes.

Em 2024, o diário Helsingin Sanomat, sediado em Helsínquia, colaborou na criação de um “ABC da Literacia Mediática”, distribuído a todos os jovens de 15 anos no início do ensino secundário. Para o editor-chefe do jornal, Jussi Pullinen, é essencial que os media sejam vistos como fontes fiáveis. “É muito importante sermos reconhecidos como um local onde se pode obter informação verificada, em que se pode confiar, produzida de forma transparente por pessoas conhecidas”, afirmou.

Democracia sob pressão da desinformação
A literacia mediática faz parte do currículo educativo finlandês desde a década de 1990, existindo também formações destinadas a adultos mais velhos, considerados particularmente vulneráveis à desinformação.

Estas políticas contribuíram para que a Finlândia, com cerca de 5,6 milhões de habitantes, ocupe consistentemente os primeiros lugares do Índice Europeu de Literacia Mediática, elaborado pelo Open Society Institute, entre 2017 e 2023.

O ministro da Educação, Anders Adlercreutz, reconhece que o cenário actual supera as previsões iniciais. “Não acho que tenhamos imaginado que o mundo se tornaria assim”, afirmou, referindo-se à avalanche de desinformação que coloca em causa instituições democráticas.

Especialistas alertam que o avanço acelerado da inteligência artificial irá tornar a identificação de conteúdos falsos cada vez mais complexa. Martha Turnbull, directora de influência híbrida no Centro Europeu de Excelência para o Combate às Ameaças Híbridas, sediado em Helsínquia, sublinha que já é difícil distinguir o que é real no espaço informativo.

“Actualmente, ainda é relativamente fácil identificar falsificações geradas por IA porque a qualidade não é tão elevada como poderia ser”, explicou. No entanto, alerta que esse cenário pode mudar rapidamente: “À medida que a tecnologia evolui, especialmente com o desenvolvimento de IA mais autónoma, será muito mais difícil detectar o que é falso”.

Perante este contexto, a Finlândia aposta numa resposta estrutural e preventiva: educar desde cedo para proteger a democracia no futuro digital.

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