O presidente da Rússia, Vladimir Putin, criticou a decisão recente da NATO de aumentar o investimento em Defesa, considerando-a injustificada e baseada numa “agressão russa inexistente”. No entanto, e num momento raro de reconhecimento das consequências económicas da guerra, o chefe de Estado russo admitiu que os gastos militares do Kremlin já superam os 6% do Produto Interno Bruto (PIB), um valor que ronda os 13,5 biliões de rublos — o equivalente a cerca de 146 mil milhões de euros.
As declarações de Putin foram feitas em Minsk, na Bielorrússia, após a reunião da União Económica Euroasiática, plataforma que junta vários parceiros regionais. Foi também nesse contexto que o presidente russo se mostrou disposto a retomar negociações com a Ucrânia, sugerindo uma terceira ronda de conversações na cidade turca de Istambul, que tem sido o palco habitual dos contactos diplomáticos entre Moscovo e Kiev.
“As posições russa e ucraniana são opostas, mas os contactos vão continuar”, afirmou Putin, salientando que a data e o local da próxima reunião ainda não estão definidos.
Troca de corpos e novo memorando
Um dos únicos avanços práticos resultantes das anteriores rondas de negociações tem sido a troca de prisioneiros de guerra. Desta vez, Putin garantiu que Moscovo está pronto para entregar três mil corpos de soldados ucranianos caídos em combate, o que pressupõe, como tem sido habitual, uma reciprocidade por parte de Kiev com um número semelhante.
Além da troca de corpos, o presidente russo referiu a possibilidade de discutir um novo memorando de entendimento com a Ucrânia durante a próxima ronda negocial. A eventual proposta será levada a Istambul, embora não tenham sido revelados pormenores sobre o seu conteúdo.
Críticas à NATO e promessas de cortes
Num tom desafiante, Vladimir Putin dirigiu-se também à NATO, que aprovou recentemente um novo documento estratégico que recomenda aos seus Estados-membros um investimento mínimo de 5% do PIB em Defesa. Os aliados justificaram esta medida com a continuação da invasão russa da Ucrânia, mas Putin rejeitou essa premissa.
“O aumento da despesa da NATO é baseado numa agressão russa inexistente”, declarou o presidente russo.
Num gesto que pretendeu vincar a diferença entre Moscovo e o Ocidente, Putin anunciou a intenção de reduzir os gastos militares no futuro, embora sem indicar datas concretas para essa contenção orçamental.
“A Rússia planeia cortar os gastos militares no futuro, ao contrário do Ocidente”, disse, num comentário carregado de ironia.
Ainda assim, o próprio reconheceu que o esforço de guerra já está a ter efeitos na economia russa. “A Rússia pagou com inflação pelos seus gastos militares”, afirmou, antes de admitir que o Kremlin está a tentar “lidar com desafios no orçamento militar”.
De acordo com dados divulgados pelo próprio presidente, os gastos com Defesa já superam os 6% do PIB russo. Em termos absolutos, representam cerca de 13,5 biliões de rublos, o que corresponde a aproximadamente 146 mil milhões de euros — um valor sem precedentes na Rússia pós-soviética.
Entre a retórica e a realidade
As declarações de Vladimir Putin surgem num momento em que Moscovo tenta manter uma aparência de disponibilidade para a diplomacia, ao mesmo tempo que intensifica a retórica contra a NATO e o Ocidente. A aparente abertura a novas conversações com a Ucrânia contrasta com a ausência de progressos substanciais no terreno diplomático e com a continuação dos combates em várias frentes no leste e sul da Ucrânia.
A admissão do impacto económico da guerra surge como uma nota rara de realismo no discurso público de Putin, que até agora tem procurado minimizar os custos internos da invasão lançada em fevereiro de 2022.
No entanto, ao mesmo tempo que rejeita qualquer culpa na escalada militar na Europa, o presidente russo vai reconhecendo, pouco a pouco, que a guerra tem um preço — não apenas em vidas humanas, mas também na estabilidade económica do país.













