As famílias da zona euro enfrentam atualmente uma fatura alimentar cerca de um terço mais elevada do que antes da pandemia de Covid-19, revelou esta quinta-feira o Banco Central Europeu (BCE). O aumento dos custos laborais e das matérias-primas globais tem sido o principal motor desta escalada, que supera claramente a evolução dos restantes bens de consumo.
De acordo com os dados divulgados, os preços dos alimentos em agosto estavam 34% acima dos registados no mesmo mês de 2019. No mesmo período, o índice geral de preços ao consumidor subiu 23%. Esta divergência é considerada “excecional e persistente” desde 2022, segundo um blogue assinado por Elena Bobeica, Gerrit Koester e Christiane Nickel, economistas do BCE.
Os autores sublinham que esta tendência merece especial atenção na definição da política monetária: “Os preços dos alimentos importam de forma desproporcionada para as perceções e expectativas de inflação, que são cruciais para garantir a estabilidade de preços na área do euro”.
O aumento dos preços alimentares atinge de forma mais severa os agregados familiares de menores rendimentos, que destinam uma fatia maior do orçamento às compras de supermercado.
O BCE reconhece ainda que, embora os salários estejam a crescer, estes apenas compensam parcialmente a perda de rendimento real acumulada nos últimos anos. “Quando as pessoas vão ao supermercado… algumas sentem-se mais pobres do que antes do surto de inflação que se seguiu à pandemia”, escrevem os economistas.
Em agosto, a inflação alimentar acelerou para 3,2% — a segunda mais elevada em ano e meio —, muito acima da taxa global de 2% para a zona euro, valor que coincide com a meta de médio prazo do BCE. O crescimento dos preços da alimentação também superou as restantes categorias incluídas no cálculo da inflação, como energia, serviços e bens de consumo.
A preocupação foi reforçada por Isabel Schnabel, membro do conselho do BCE, que em entrevista à Reuters destacou a inflação alimentar como um risco relevante.
Apesar de ter mantido a taxa de juro de referência em 2% no início de setembro, a instituição admite sinais contraditórios sobre a evolução futura da inflação.
O BCE identifica dois fatores principais para a pressão recente: os aumentos nos custos laborais e a subida dos preços internacionais de matérias-primas, em parte relacionados com alterações climáticas.
As secas prolongadas no sul de Espanha em 2022 e 2023 levaram a aumentos acentuados do preço do azeite. Também o café e o cacau dispararam, devido a fenómenos climáticos adversos em países exportadores como Gana e Costa do Marfim.
Segundo os cálculos do BCE, o preço da carne de vaca e do leite está quase 40% acima do registado no final de 2019. A manteiga e o azeite aumentaram cerca de 50%, enquanto o cacau e o chocolate tiveram subidas ainda mais acentuadas.
O impacto da escalada varia entre os Estados-membros. Desde o final de 2019, os preços dos alimentos aumentaram em média 28% em Itália, 37% na Alemanha e mais de 50% nos países bálticos. Estas diferenças refletem o grau distinto de exposição a choques de matérias-primas, à dinâmica salarial e aos custos energéticos em cada país.














