Dois anos depois de ter recuado na medida, a Liga dos Bombeiros Portugueses volta a admitir a cobrança de uma taxa aos hospitais do SNS pelo tempo em que as ambulâncias ficam paradas nas urgências à espera da devolução das macas. A possibilidade será analisada este sábado, numa reunião com as federações distritais, revelou ao jornal ‘Público’ o vice-presidente da liga, Eduardo Correia.
A discussão regressa na sequência da morte de um homem de 78 anos, no Seixal, que aguardou quase três horas pelo socorro após uma queda em casa. Segundo o presidente do INEM, o atraso ficou a dever-se à indisponibilidade de ambulâncias, retidas nos hospitais da Margem Sul à espera das macas.
“É natural que a questão da cobrança volte para cima da mesa. Não temos muito mais armas para resolver este problema”, afirmou Eduardo Correia, sublinhando que a retenção prolongada de meios de emergência é “insustentável” para as corporações e compromete o socorro pré-hospitalar.
Morte no Seixal e investigação aberta
O pedido de ajuda foi feito às 11h23 e classificado como prioridade urgente, o que previa a chegada de uma ambulância em até 60 minutos. No entanto, os meios só foram acionados quase três horas depois, quando a vítima já se encontrava em paragem cardiorrespiratória. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) abriu um inquérito para apurar a qualidade da resposta prestada.
O caso coincidiu com a entrada em vigor de um novo modelo de triagem do INEM, mas o presidente do instituto rejeitou qualquer ligação entre o sistema e o atraso, garantindo que a prioridade atribuída teria sido a mesma no modelo anterior. Segundo explicou, a falha resultou exclusivamente da falta de meios disponíveis, causada pela retenção das ambulâncias nos hospitais da Margem Sul.
Um problema recorrente
A retenção de macas nas urgências é um problema recorrente nos períodos de maior pressão, sobretudo nos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo. Há dois anos, a LBP chegou a ameaçar cobrar entre 50 e 150 euros por hora de espera, mas a medida acabou suspensa após um acordo com o INEM e a Direção Executiva do SNS para melhorar a circulação dos doentes no circuito hospitalar.
Este ano, porém, a liga lamenta que não tenha sido ativado um dispositivo extraordinário de reforço do socorro pré-hospitalar, como aconteceu no inverno passado, nem que os bombeiros tenham sido previamente envolvidos nas alterações ao sistema de prioridades do INEM.
Segundo Eduardo Correia, o problema está identificado há anos e não se resolve apenas com mais macas. A falta de altas hospitalares, a escassez de respostas na rede de cuidados continuados e a carência de profissionais continuam a bloquear o sistema. “Sem uma visão integrada e logística, vamos repetir isto sempre que a pressão aumentar”, alerta.














