Extremismo recruta online: PJ lança campanha inédita para proteger jovens

Iniciativa será apresentada esta terça-feira, numa conferência a realizar na sede da PJ, dedicada ao tema “Prevenção da Radicalização Online de Crianças e Jovens”

Revista de Imprensa
Janeiro 12, 2026
9:20

A Polícia Judiciária vai lançar uma campanha de prevenção do discurso de ódio e da radicalização online dirigida a crianças e jovens, num contexto que a própria instituição classifica como um dos maiores desafios atuais à segurança interna. A iniciativa será apresentada esta terça-feira, numa conferência a realizar na sede da PJ, dedicada ao tema “Prevenção da Radicalização Online de Crianças e Jovens”.

De acordo com o ‘Diário de Notícias’, o encontro contará com a participação de investigadores da PJ, peritos internacionais e especialistas das áreas da psicologia, apoio às vítimas e educação, num esforço assumidamente multidisciplinar para responder a um fenómeno em crescimento.

Ódio como motor da radicalização

A diretora da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ, Patrícia Silveira, sublinha que a radicalização online de crianças e jovens exige uma resposta integrada do Estado, da sociedade civil e do setor privado. “A problemática da radicalização de crianças e jovens em ambiente online constitui atualmente um dos maiores desafios para a segurança interna do espaço europeu”, afirma, defendendo uma intervenção coordenada em várias áreas de ação e conhecimento.

Segundo a responsável, a campanha visa alertar crianças, jovens, pais e educadores para os riscos existentes no espaço digital e para as consequências que podem transbordar para o mundo físico. Na experiência da PJ, “o ódio tem, por regra, um papel extremamente relevante no processo de radicalização de crianças e jovens online”.

Patrícia Silveira explica que os autores exploram fragilidades como o isolamento social, a solidão, a exclusão, a ausência de pensamento crítico, problemas de saúde mental, fascínio pela violência ou sentimentos de inveja, incitando ao ódio e conduzindo, em casos extremos, à prática de violência física contra si próprios, contra terceiros ou contra animais.

Algoritmos como câmaras de eco

Um dos casos que será apresentado na conferência, segundo a diretora da UNCT, reúne todas estas dimensões e serve de “espelho e aviso” para famílias que podem estar a ignorar sinais de alerta silenciosos. Patrícia Silveira alerta ainda para o papel dos algoritmos das plataformas digitais, que funcionam como verdadeiras “câmaras de eco” ao validar e amplificar conteúdos de ódio.

“Os jovens não são apenas alvos; são muitas vezes capturados através da sua própria solidão”, sublinha, advertindo que aquilo que começa como um videojogo ou um fórum de partilha de memes pode transformar-se rapidamente numa espiral de violência real.

A PJ pretende que esta campanha contribua para quebrar o isolamento em que muitos jovens se encontram e capacitar pais e professores para reconhecer sinais de alerta, como mudanças súbitas de vocabulário, isolamento excessivo ou a adoção de ideologias extremistas disfarçadas de ironia. O objetivo é prevenir processos de radicalização silenciosos, que decorrem muitas vezes “no quarto” das crianças e jovens, e que podem conduzir a percursos de difícil ou impossível retorno.

Segundo Patrícia Silveira, a ambição é que a conferência seja o ponto de partida para um compromisso nacional que reconheça a segurança digital como uma dimensão da segurança interna.

Crescem os casos de jovens ligados a extremismo violento

A decisão de avançar com a campanha surge num contexto de aumento do número de jovens, incluindo menores, envolvidos na preparação ou execução de atos extremistas violentos, uma tendência confirmada por relatórios recentes da Europol e dos Estados-membros da União Europeia. Esse crescimento evidenciou, segundo a PJ, a urgência de medidas de prevenção específicas para crianças e jovens no espaço europeu.

Tendo em conta a multiplicidade de plataformas digitais e o impacto crescente da Inteligência Artificial, a PJ reconhece que é impossível monitorizar todos os conteúdos, defendendo a implementação de estratégias de mitigação dos principais fatores de risco. Entre as medidas apontadas estão a sensibilização dos prestadores de serviços para a moderação de conteúdos extremistas, o reforço da literacia digital e a promoção de mecanismos de sinalização e apoio a indivíduos mais vulneráveis.

Violência e discurso de ódio preocupam direção da PJ

O diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, tem reiterado publicamente a sua preocupação com a violência, os extremismos e o discurso de ódio entre os mais jovens. Em entrevista ao ‘Diário de Notícias’, afirmou tratar-se de um fenómeno “particularmente grave e preocupantemente crescente”, marcado pela difusão de propaganda assente na manipulação, em fake news e em mensagens de ódio dirigidas à diversidade humana.

Luís Neves alertou ainda para a violência verbal nas redes sociais, incluindo ataques de género, raça, religião e ideologia, bem como para o crescimento da masculinidade tóxica e da violência direcionada contra mulheres. Segundo o responsável, a PJ tem identificado vários casos de jovens radicalizados, investigados em fases muito precoces da prática de crimes graves.

O diretor nacional recordou ainda o caso de um jovem de 17 anos, detido no norte do país em maio passado, que esteve na origem da radicalização de jovens no Brasil envolvidos em homicídios em escolas, abusos sexuais e mutilações, com crimes difundidos através da internet.

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