Exposição a químico comum em detergentes pode triplicar risco de fibrose hepática, alerta novo estudo

A exposição ao tetracloroetileno (PCE) — um composto químico amplamente utilizado em detergentes, solventes e produtos de limpeza a seco — poderá triplicar o risco de fibrose hepática, de acordo com um novo estudo publicado na revista Liver International.

Pedro Gonçalves
Novembro 14, 2025
17:29

A exposição ao tetracloroetileno (PCE) — um composto químico amplamente utilizado em detergentes, solventes e produtos de limpeza a seco — poderá triplicar o risco de fibrose hepática, de acordo com um novo estudo publicado na revista Liver International. A investigação acrescenta-se ao crescente corpo de evidências que liga esta substância a problemas neurológicos, efeitos tóxicos nos rins e a um risco mais elevado de desenvolver determinados tipos de cancro.

A doença hepática, que engloba todas as patologias que afectam o fígado, é atualmente responsável por cerca de 4% das mortes anuais em todo o mundo. Entre estas, a condição mais prevalente é a doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica (MASLD, na sigla inglesa). Trata-se de uma doença frequentemente associada à diabetes, ao síndrome metabólico, ao consumo de tabaco, à inatividade física e a dietas desequilibradas, podendo evoluir para quadros mais graves como fibrose hepática ou cirrose.

Os autores do trabalho recorreram aos dados da National Health and Nutrition Examination Survey relativos ao período 2017-2020, analisando informação de mais de 1.600 adultos. O foco esteve nos níveis de PCE detetados no sangue e no diagnóstico de fibrose hepática.

Os resultados mostraram que cerca de 7% dos participantes tinham níveis detectáveis da substância no organismo. Estes indivíduos apresentavam três vezes mais probabilidade de ter fibrose hepática do que aqueles nos quais não foram detetados vestígios de tetracloroetileno.

Segundo os investigadores, quando o fígado metaboliza o PCE, os metabolitos resultantes interagem com as células hepáticas e quebram os lípidos das membranas celulares. Este processo desencadeia uma reação inflamatória e um processo de cicatrização — características centrais da fibrose hepática.

O estudo identificou ainda uma relação dependente da dose, ou seja, quanto maiores os níveis de PCE no sangue, maior o risco de desenvolver fibrose. Esta relação reforça a plausibilidade de causalidade, ao invés de se tratar apenas de uma simples correlação estatística.

Os autores defendem que esta nova evidência deve influenciar tanto as estratégias de rastreio da doença hepática como as políticas ambientais destinadas a limitar a exposição a substâncias químicas perigosas.

O tetracloroetileno está presente numa vasta gama de produtos domésticos e industriais, incluindo adesivos, limpadores de travões, desengordurantes de metal, decapantes, lubrificantes de silicone e produtos de impermeabilização. Para além do impacto hepático, estudos anteriores já associaram esta substância a doenças renais, neurotoxicidade e alguns tipos de cancro, como o carcinoma da bexiga e o linfoma não-Hodgkin.

O estudo, conduzido por Yinan Su, Jennifer L. Dodge e Brian P. Lee, foi publicado em 2025 sob o título Tetrachloroethylene Is Associated With Presence of Significant Liver Fibrosis: A National Cross-Sectional Study in US Adults, na revista Liver International.

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