Explicador: Trump tem mais semelhanças com Putin do que se supunha. Estão os EUA a tornar-se a Rússia?

Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez e dissidente russo exilado, alerta que os Estados Unidos enfrentam hoje “retórica sobre inimigos internos, poder privatizado por bajuladores e propaganda acima de princípios”

Francisco Laranjeira
Fevereiro 2, 2026
16:38

Muitas análises sobre Donald Trump nos Estados Unidos concentram-se no seu caráter único e puramente doméstico, ignorando referências internacionais. No entanto, especialistas em ‘Putinismo’ afirmam que compreender a administração Trump passa também por olhar para a Rússia de Vladimir Putin, cujas práticas autoritárias servem de alerta para o rumo da democracia americana.

Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez e dissidente russo exilado, alerta que os Estados Unidos enfrentam hoje “retórica sobre inimigos internos, poder privatizado por bajuladores e propaganda acima de princípios”. Para Kasparov, a comparação não é exagero: “Se se preocupam com a liberdade, agora é o momento de agir.”

Semelhanças entre Trump e Putin

Segundo os especialistas, Trump e Putin partilham visões nacionalistas “iliberais”, criticando o liberalismo e promovendo valores conservadores próprios. Ambos recorrem a retórica étnica e racista, opõem-se à imigração e defendem posições unilateralistas em política externa, com pouco interesse no multilateralismo. Michael McFaul, ex-embaixador dos EUA em Moscovo, afirma que estes padrões se repetem nos dois líderes, tanto interna como externamente.

Sarah Paine, historiadora e especialista em estratégia, sublinha que os Estados Unidos mudaram de uma estratégia marítima — baseada em comércio e alianças — para uma “estratégia continental”, semelhante à abordagem russa em conflitos fronteiriços e territoriais. Recentes declarações de Trump sobre o Canadá, sugerindo transformá-lo num “51º estado”, exemplificam esta visão expansionista.

A esfera de influência e o papel dos oligarcas

Tal como em Moscovo, Trump concentra poder e favorece uma elite económica próxima do poder político. Empresários influentes nos Estados Unidos mantêm relações estreitas com o presidente, enquanto tarifas e interferências em empresas privadas reforçam a lógica plutocrática. Esta dinâmica aproxima o modelo americano do autoritarismo russo, com controlo concentrado e redução de contrapesos institucionais.

Autoritarismo interno e ataques a meios de comunicação

Susan Glasser, jornalista especializada no desmantelamento da democracia russa, identifica dois aspetos na “putinização da América”: alinhamento das posições externas com a Rússia e uso crescente de táticas autocráticas contra adversários e protestos. Instituições independentes, universidades e meios de comunicação têm sido alvo de processos judiciais e outros mecanismos repressivos. Recentemente, o FBI realizou buscas ao equipamento de jornalistas do ‘The Washington Post’ no âmbito de investigações sobre fugas de informação.

Masha Gessen alerta que Trump procura minar os mecanismos democráticos, criando um clima de medo e incerteza. “O terrorismo de Estado chegou”, escreve a especialista, referindo-se ao impacto das ações da administração em cidadãos e instituições.

O impacto na opinião pública

A proliferação de mentiras e propaganda desgasta a confiança do público nas instituições, criando cinismo generalizado e relativismo extremo. Maria Konnikova, psicóloga e jornalista, sublinha que a enxurrada de informação falsa obriga os cidadãos a esforços cognitivos constantes, facilitando a propagação de narrativas autoritárias. Neste cenário, tanto Putin como Trump prosperam, manipulando perceções e polarizando sociedades.

Garry Kasparov alerta que futuras tentativas de subverter processos democráticos nos EUA poderão ser ainda mais sofisticadas, com intervenções nos corredores do poder, em vez de manifestações públicas como a invasão do Capitólio em 2021.

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