A Rússia terá proposto, em 2019, um acordo informal à administração Trump que previa uma troca geopolítica direta: influência dos Estados Unidos sobre a Venezuela em troca de uma retirada de Washington da Ucrânia. A revelação foi feita por Fiona Hill, ex-conselheira sénior da Casa Branca para a Rússia e a Europa, em depoimentos prestados ao Congresso americano.
Segundo Hill, a proposta surgiu num contexto de forte instabilidade na Venezuela, marcada por apagões generalizados, escassez de bens essenciais e protestos de grande escala, na sequência das eleições presidenciais de 2018, consideradas ilegítimas pelos Estados Unidos e por vários países ocidentais. De acordo com o ‘Kyiv Post’, a abordagem russa terá sido transmitida de forma indireta e não oficial, em plena crise política no país sul-americano.
No seu testemunho, Fiona Hill descreveu a proposta do Kremlin como “um acordo de troca muito estranho”, referindo-se a contactos ocorridos entre março e maio de 2019. “Estávamos num impasse por causa da Venezuela e os russos sinalizavam muito fortemente que queriam algum tipo de acordo de troca entre a Venezuela e a Ucrânia”, afirmou.
Hill sugeriu ainda que esta iniciativa poderá ter estado ligada ao escândalo da Burisma, que esteve na origem do primeiro processo de impeachment de Donald Trump, devido às tentativas de pressionar autoridades ucranianas a anunciarem investigações envolvendo Hunter Biden, filho do então candidato presidencial Joe Biden.
Durante o depoimento, a ex-conselheira mencionou contactos com vários interlocutores, incluindo Amos Hochstein, antigo enviado especial dos EUA para a energia e antigo membro do conselho de supervisão da empresa estatal ucraniana Naftogaz. “Quero que reflita sobre esse período”, disse Hill, segundo transcrições divulgadas na altura.
Doutrina Monroe como metáfora geopolítica
Hill comparou a lógica da proposta russa a uma versão espelhada da Doutrina Monroe, a política histórica dos Estados Unidos que defende a exclusão de potências externas do continente americano. “Vocês têm a vossa Doutrina Monroe. Querem que a Rússia fique fora do vosso quintal”, explicou. “Mas nós temos a nossa versão disso. Vocês estão no nosso quintal, na Ucrânia”, acrescentou, descrevendo a mensagem transmitida por Moscovo.
Segundo a ex-conselheira, esta sinalização ocorreu depois de a Rússia ter enviado cerca de uma centena de militares para a Venezuela, com o objetivo de garantir a segurança do regime de Nicolás Maduro e dissuadir qualquer ação militar americana.
Contactos indiretos e recuo imposto por Washington
Hill afirmou que a proposta foi comunicada “informalmente”, através de comentários na imprensa russa e de múltiplos canais paralelos. Perante isso, recebeu instruções do Conselho de Segurança Nacional e do Departamento de Estado para pressionar Moscovo a recuar. “A minha missão foi basicamente dizer aos russos para pararem com isso”, afirmou.
No mesmo depoimento, Hill referiu ainda a existência de interesses cruzados entre os setores energéticos ucraniano e venezuelano, mencionando nomes como Lev Parnas, Igor Fruman e o empresário americano Harry Sargeant III, figuras associadas a redes de influência política e energética. “Disseram-me que eram uma má influência”, declarou, sem entrar em detalhes adicionais.
Já este ano, após a incursão dos Estados Unidos na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, a Rússia condenou publicamente a operação. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que a Venezuela “deve ter garantido o direito de determinar o seu próprio destino sem interferências externas destrutivas, especialmente militares”, numa posição que contrasta com a estratégia anteriormente atribuída ao Kremlin.














