A indústria automóvel ocidental está a rever em baixa os seus planos de eletrificação, depois de as previsões otimistas lançadas no início da década não se terem concretizado. Fabricantes europeus e americanos enfrentam hoje um mercado que cresce abaixo do esperado, políticas públicas menos consistentes e uma pressão crescente das marcas chinesas, num contexto que está a obrigar o setor a redefinir prioridades, segundo o ‘El Economista’.
Quando a União Europeia apresentou o Pacto Ecológico Europeu, em 2019, com metas ambiciosas de descarbonização até 2050, o cenário parecia favorável. No entanto, uma pandemia, duas guerras e sucessivas disrupções nas cadeias de valor alteraram profundamente o contexto. O mercado europeu de veículos elétricos está a desacelerar, revela excesso de capacidade industrial e expõe a instabilidade das políticas governamentais de apoio à transição energética.
Ao mesmo tempo, o mercado europeu está a ser invadido por uma vaga de fabricantes do Extremo Oriente. As marcas chinesas, que operam num ecossistema com mais de uma centena de insígnias, estão a ganhar quota de mercado ao oferecer veículos mais acessíveis, tecnologicamente mais avançados e com custos de produção inferiores. Só no último ano, duplicaram as exportações para a União Europeia, atingindo 812 mil unidades vendidas, de acordo com dados da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, citados pelo ‘El Economista’.
EUA retiram incentivos e aceleram a mudança de estratégia
Nos Estados Unidos, a mudança de rumo foi ainda mais abrupta. A administração de Donald Trump eliminou, em setembro do ano passado, os incentivos fiscais à compra de veículos elétricos, que chegavam a 7.500 euros em créditos ao abrigo da Lei de Redução da Inflação promovida pelo anterior presidente, Joe Biden. A decisão retirou o principal apoio ao crescimento deste mercado e teve impacto imediato nas estratégias das grandes construtoras.
A Stellantis anunciou encargos extraordinários de 22,2 mil milhões de euros, enquanto a Ford cancelou vários projetos de desenvolvimento de veículos elétricos, registando um impacto contabilístico de cerca de 16,5 mil milhões de euros. Entre as decisões tomadas está a substituição da pick-up F-150 Lightning totalmente elétrica por um modelo de autonomia estendida, que recorre a um motor a gasolina para recarregar a bateria, bem como o cancelamento de uma nova geração de pick-ups elétricas e de carrinhas comerciais.
Também a General Motors reviu os seus planos, anunciando uma baixa contabilística de 5,1 mil milhões de euros após reavaliar os investimentos em veículos elétricos. O grupo justificou o ajustamento com a redução da produção planeada e os efeitos dessa decisão na cadeia de fornecimento, incluindo contratos cancelados com fornecedores e imparidades em ativos. Apesar de um aumento ligeiro das receitas, o lucro líquido da empresa caiu para cerca de 2,3 mil milhões de euros.
O impacto reflete-se no mercado americano, onde as vendas de veículos elétricos recuaram para 1,28 milhões de unidades no último ano, depois de uma quebra acentuada no último trimestre.
Europa cresce abaixo das metas e abranda os planos
Na Europa, apesar de uma projeção de crescimento de 30% para 2025, os veículos elétricos representam apenas 17% do mercado, abaixo da meta de 20% definida pela indústria para cumprir os objetivos de descarbonização de Bruxelas. Este desfasamento levou os fabricantes a alertarem a Comissão Europeia, que acabou por conceder alguma flexibilidade para evitar multas e proteger os balanços das empresas.
Como consequência, vários construtores europeus estão a rever os seus calendários. A Porsche adiou o lançamento de modelos totalmente elétricos e o desenvolvimento de uma nova plataforma para depois de 2030, uma decisão que teve um impacto de 4,7 mil milhões de euros no Grupo Volkswagen. A marca alemã cancelou ainda um SUV elétrico que seria posicionado acima do Cayenne, optando agora por versões a combustão e híbridas plug-in, com um custo estimado de 1,8 mil milhões de euros.
A Mercedes-Benz também recuou na meta de se tornar totalmente elétrica até 2030. A fabricante passou a prever que até metade das suas vendas serão de veículos eletrificados, incluindo híbridos plug-in, e decidiu disponibilizar versões híbridas de modelos inicialmente planeados apenas como elétricos. Com a plataforma modular MMA, a empresa aposta agora numa estratégia multienergética, depois de abandonar o objetivo de ter 100% do mix de vendas em elétricos. Atualmente, estes representam 9,4% das vendas, com uma previsão de queda em 2025.
Ferrari, Volvo e um futuro mais híbrido
A revisão estratégica estende-se a marcas de nicho. A Ferrari reduziu para 20% a meta de produção de veículos elétricos até 2030, metade do que tinha previsto em 2022. A marca italiana aponta agora para um equilíbrio entre híbridos, que deverão representar 40% da produção, e motores de combustão interna, que ocuparão os restantes 40%.
Este anúncio surge num momento em que a Ferrari revelou detalhes do seu primeiro desportivo totalmente elétrico, o Ferrari Elettrica, cujas entregas deverão começar ainda este ano, sublinhando que a eletrificação continua nos planos, mas de forma mais cautelosa e gradual.
No conjunto, a indústria automóvel parece entrar numa nova fase, menos marcada por metas rígidas e mais orientada para soluções híbridas e multienergéticas. Uma reavaliação estratégica que, segundo o El Economista, reflete a necessidade de adaptação a um mercado mais incerto, competitivo e politicamente volátil.




