Portugal continental entra numa nova semana marcada por chuva persistente, vento forte, mar agitado e risco elevado de cheias e inundações, depois dos impactos severos provocados pela tempestade Kristin. A precipitação voltou a intensificar-se a partir de domingo, agravando-se durante a madrugada de segunda-feira, com novos episódios muito ativos previstos a meio da semana e no próximo fim de semana, num contexto que as autoridades classificam como “muito complexo”.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) confirma que haverá precipitação praticamente todos os dias, sobretudo nas regiões Norte e Centro, rejeitando, ainda assim, que se trate de um fenómeno com a dimensão da Kristin. Apesar disso, os alertas mantêm-se elevados devido à saturação dos solos, às bacias hidrográficas cheias e à sucessão de depressões que têm atingido o território.
Porque é que a situação é considerada crítica?
A sequência de tempestades deixou os solos sem capacidade de absorção. José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), explica que “qualquer chuva se transforma em escoamento”, aumentando de forma significativa o risco de cheias rápidas, inundações urbanas e deslizamentos de terras. A situação é agravada pela neve acumulada na Serra da Estrela, pelo degelo e pelos terrenos queimados nos incêndios do verão passado, que perderam capacidade de retenção de água.
Além da chuva, estão previstos ventos muito fortes — com avisos laranja em todos os distritos do litoral e rajadas acima dos 100 km/h —, mar muito agitado, com ondas que podem atingir os 13 a 15 metros, e queda de neve em vários distritos do Norte e Centro.
Estado de calamidade prolongado e resposta reforçada
Perante o risco extremo, o Governo decidiu prolongar a situação de calamidade até 8 de fevereiro, alargando-a a mais nove concelhos, passando a abranger 59 municípios, incluindo zonas como Águeda, Aveiro, Ovar, Estarreja, Alcácer do Sal e Sever do Vouga. Em paralelo, foi ativado o Plano Nacional de Emergência, assegurando coordenação reforçada entre todas as entidades envolvidas.
Luís Montenegro admitiu que estão a ser equacionados planos de evacuação e estimou que cerca de 34 mil operacionais possam ser mobilizados. Os apoios aprovados em Conselho de Ministros, num total de 2.500 milhões de euros, começam agora a ser aplicados, embora a recuperação esteja condicionada pela persistência do mau tempo.
“Pequenas cheias” para evitar cenários descontrolados
A gestão dos caudais tornou-se central na resposta das autoridades. A APA está a aproveitar janelas curtas de menor precipitação para aumentar a capacidade de encaixe das albufeiras, provocando descargas controladas. O objetivo, segundo Pimenta Machado, é “causar pequenas cheias” de forma planeada para evitar uma cheia descontrolada mais à frente.
Apesar destas medidas, admite-se que, com a precipitação prevista, será impossível manter um equilíbrio perfeito. O Alqueva já realizou novas descargas, tal como várias barragens espanholas, o que exige uma articulação constante entre os dois países.
Onde estão os maiores riscos de cheias e inundações
A Proteção Civil alerta para cheias nas principais bacias hidrográficas: Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Mondego, Vouga, Tejo, Zêzere, Sorraia e Sado. Há também risco de inundações rápidas em zonas urbanas, causadas pela acumulação de águas pluviais e pela obstrução dos sistemas de drenagem.
Mário Silvestre, comandante nacional de Emergência e Proteção Civil, sublinha que “a questão não é se vamos ter um problema, mas quando e com que dimensão”, alertando para um potencial de danos “muito, muito significativos”.
Recomendações para quem conduz, anda a pé ou fica em casa
As autoridades pedem à população que restrinja ao máximo as deslocações, evite zonas ribeirinhas e áreas historicamente inundáveis e nunca atravesse estradas submersas. O piso escorregadio, a formação de lençóis de água, a queda de árvores e objetos soltos e a forte agitação marítima aumentam o risco de acidentes.
A condução deve ser defensiva, com especial cuidado nas vias afetadas por chuva intensa ou neve. Em caso de queda de neve, recomenda-se evitar viagens com crianças, idosos ou pessoas com mobilidade reduzida e assegurar que os veículos têm combustível, correntes de neve e equipamentos essenciais.
Escolas: encerramentos e reaberturas faseadas
Nos concelhos mais atingidos, como Leiria, Marinha Grande e Pedrógão Grande, as escolas permanecem encerradas por falta de condições de segurança. Outras autarquias, como Proença-a-Nova e Condeixa-a-Nova, anunciaram o regresso às aulas, ainda que com ajustes pontuais.
O Governo garante que o Ministério da Educação está em contacto permanente com os municípios, dando prioridade à reabertura das escolas assim que estejam reunidas as condições essenciais, incluindo água, eletricidade e comunicações.
Água e alimentos: os avisos da Direção-Geral da Saúde
A Direção-Geral da Saúde alerta para cuidados redobrados com a água e os alimentos nas zonas afetadas por cortes de energia e abastecimento. Fontes privadas, como poços e minas, devem ser consideradas potencialmente contaminadas. Sempre que necessário, a água deve ser fervida durante 10 minutos ou desinfetada com lixívia adequada.
No caso dos alimentos, a DGS lembra que produtos refrigerados podem manter-se seguros até 12 horas sem energia, enquanto os congelados podem durar até 48 horas se o congelador se mantiver fechado.
Burlas, geradores e riscos invisíveis
As forças de segurança alertam para o aumento de burlas e furtos em zonas afetadas, com falsos técnicos a aproveitarem-se da vulnerabilidade das populações. A recomendação é confirmar sempre a identidade de quem presta serviços e denunciar qualquer situação suspeita.
Há também um alerta grave para o uso de geradores. Vários casos de intoxicação por monóxido de carbono, incluindo mortes, levaram as autoridades a reforçar que estes equipamentos devem funcionar exclusivamente no exterior, a pelo menos seis metros de qualquer entrada de ar. Os sintomas incluem dores de cabeça, tonturas e confusão, devendo, nesses casos, ser acionado imediatamente o 112.
Reparações e evacuações: prudência máxima
A Proteção Civil aconselha a evitar reparações em telhados e trabalhos em altura enquanto persistirem condições meteorológicas adversas. Em municípios como Pombal, foi pedido às pessoas em zonas de risco que, sempre que possível, pernoitem fora de casa, com especial atenção a idosos e pessoas vulneráveis.
Autarquias e Governo garantem que estão preparados para evacuações, com equipas e meios de socorro de prevenção, apelando à colaboração da população e ao cumprimento rigoroso das indicações das autoridades.














