Explicador: O que significa a captura de Maduro pelos EUA para os planos da China sobre Taiwan?

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, numa operação realizada nas primeiras horas de sábado, levantou dúvidas e especulação internacional sobre eventuais repercussões geopolíticas, em particular no que diz respeito às ambições da China em relação a Taiwan.

Pedro Gonçalves
Janeiro 5, 2026
16:32

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, numa operação realizada nas primeiras horas de sábado, levantou dúvidas e especulação internacional sobre eventuais repercussões geopolíticas, em particular no que diz respeito às ambições da China em relação a Taiwan. O tema ganhou forte destaque nas redes sociais chinesas, mas especialistas ouvidos pela Newsweek consideram improvável que este episódio altere de forma significativa o cálculo estratégico de Pequim.

O que aconteceu na Venezuela?
Os Estados Unidos levaram a cabo uma operação que resultou na detenção de Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores. A administração do presidente Donald Trump classificou a acção como uma “detenção”, invocando uma acusação formal apresentada em 2020 que aponta Maduro como envolvido numa conspiração para introduzir narcóticos nos Estados Unidos.

Críticos da operação argumentam que o ataque violou o direito internacional e a legislação norte-americana, sublinhando que foi realizado sem notificação prévia nem aprovação do Congresso. As autoridades venezuelanas afirmaram que a operação provocou mais de 40 mortos, incluindo civis.

Como reagiu a China oficialmente?
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China condenou a ação dos Estados Unidos e apelou à devolução imediata de Maduro e da sua esposa, defendendo que os diferendos devem ser resolvidos através do diálogo.

Pequim reiterou a sua oposição a intervenções unilaterais e classificou a atuação norte-americana como uma violação da soberania de um Estado.

Porque é que o caso se tornou viral na China?
A operação norte-americana rapidamente se tornou um dos temas mais discutidos nas redes sociais chinesas, em particular na plataforma Weibo, onde acumulou mais de 440 milhões de visualizações, segundo a Bloomberg News.

Alguns utilizadores sugeriram que a ação dos Estados Unidos poderia servir de modelo para uma eventual operação chinesa contra Taiwan. “O ataque relâmpago dos imperialistas norte-americanos à Venezuela e a detenção de Maduro e da sua esposa forneceram um excelente modelo para o nosso exército lançar um ataque surpresa sobre a Ilha dos Sapos e capturar o presidente taiwanês Lai Ching-te”, escreveu um utilizador. Outro comentou: “Vejam como foram eficientes, resolveram o problema numa hora”.

Taiwan entra no cálculo estratégico de Pequim?
Apesar da especulação online, vários analistas rejeitam a ideia de que o episódio venezuelano altere a posição chinesa sobre Taiwan. Ryan Hass, director do Centro da China do Brookings Institution, escreveu na rede social X que não espera “que os acontecimentos de hoje na Venezuela alterem dramaticamente o cálculo de Pequim sobre Taiwan”.

Segundo Hass, a China “não se tem abstido de ações cinéticas ou de outro tipo contra Taiwan por respeito ao direito internacional e às normas”, optando antes por “uma estratégia de coerção sem violência”. Acrescentou ainda que, caso a República Popular da China avance militarmente, “a capacidade dos Estados Unidos para mobilizar uma resposta internacional não dependerá do seu historial de fidelidade ao direito internacional”.

A operação pode encorajar uma ação chinesa?
Alguns especialistas manifestaram preocupação. Lev Nachman, professor de Ciência Política na Universidade Nacional de Taiwan, escreveu estar “horrorizado” com o facto de os Estados Unidos continuarem a “criar precedentes” que poderiam ser usados pela China para justificar uma acção unilateral contra Taiwan.

Outros analistas discordam, defendendo que Pequim poderá usar o episódio sobretudo como argumento retórico para reforçar a sua narrativa de que os Estados Unidos atuam de forma imprudente, em contraste com uma China que se apresenta como defensora da ordem internacional.

O direito internacional pesa na decisão chinesa?
Segundo vários especialistas, o direito internacional não é determinante na abordagem chinesa a Taiwan. Pequim considera a ilha uma questão interna, uma vez que o governo taiwanês resultou da derrota das forças nacionalistas na guerra civil chinesa, em 1949.

No seu discurso de Ano Novo, o presidente chinês Xi Jinping reiterou que a reunificação com Taiwan é uma “tendência imparável”.

Henry Gao, professor de Direito na Singapore Management University, afirmou que “a razão pela qual a China não atuou não é a falta de justificação legal, mas a falta de capacidade”, acrescentando que a operação norte-americana na Venezuela “não fornece qualquer justificação legal adicional” para uma eventual ação chinesa.

O que dizem os Estados Unidos sobre Taiwan?
Responsáveis da defesa norte-americana acreditam que Xi Jinping deu instruções para que as Forças Armadas chinesas estejam preparadas para tomar Taiwan, embora reconheçam que isso não significa uma acção iminente.

Donald Trump afirmou ter recebido garantias de Xi Jinping de que a China não atacaria Taiwan durante o seu segundo mandato presidencial, uma declaração que não foi confirmada por Pequim.

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