Explicador. Como a Bélgica atrapalhou o plano “insano” de empréstimo de 140 mil milhões de euros da UE para a Ucrânia

Após um dia de intensas negociações, os líderes europeus não chegaram a um consenso sobre o mandato para a Comissão Europeia elaborar uma proposta legal

Francisco Laranjeira
Outubro 24, 2025
12:06

O empréstimo de 140 mil milhões de euros da União Europeia destinado à Ucrânia continua bloqueado, depois de a Bélgica se ter mantido firme na oposição à proposta de utilizar ativos russos confiscados para financiar o apoio. De acordo com o jornal ‘POLITICO’, o impasse deverá prolongar-se por, pelo menos, mais dois meses, com a decisão adiada para a próxima cimeira de líderes, marcada para dezembro.

A Bélgica, um dos países fundadores da União Europeia, conseguiu suavizar de forma significativa a linguagem da declaração final da cimeira de Bruxelas, reduzindo o alcance político do texto. O primeiro-ministro Bart de Wever — líder nacionalista flamengo de direita — enfrenta forte pressão interna e considera que o plano acarreta “enormes riscos financeiros e jurídicos” para o país, onde está sediada a Euroclear, a instituição que detém a maioria dos ativos russos congelados.

“É um pouco amargo para mim que agora nos apontem o dedo como o país relutante”, afirmou De Wever aos jornalistas, classificando como “completamente insana” a possibilidade de os contribuintes belgas assumirem eventuais prejuízos.

Após um dia de intensas negociações, os líderes europeus não chegaram a um consenso sobre o mandato para a Comissão Europeia elaborar uma proposta legal. O texto final limitou-se a “convidar a Comissão a apresentar, o mais breve possível, opções de apoio financeiro”, adiando uma decisão concreta.

Um diplomata da União Europeia descreveu o resultado como “um texto suficientemente equilibrado para permitir interpretações que respondam a todas as sensibilidades”, reconhecendo que a formulação ambígua serviu sobretudo para evitar um fracasso político.

Riscos financeiros e políticos

França, através do presidente Emmanuel Macron, garantiu que o plano “não foi enterrado”, sublinhando que os detalhes técnicos continuam em discussão. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou que os riscos do empréstimo são “geríveis”. Ainda assim, a Bélgica insiste que a operação pode comprometer “a confiança em todo o sistema financeiro europeu”, caso a Rússia reclame judicialmente os fundos.

As preocupações de Bruxelas agravam-se num contexto de incerteza internacional, com a ambiguidade de Donald Trump relativamente à guerra na Ucrânia a deixar sobre a Europa a responsabilidade de reforçar o apoio a Kiev.

Compromisso adiado

Nas últimas semanas, os diplomatas europeus procuraram acalmar as reservas de Bart de Wever, mas o primeiro-ministro belga recusou um acordo de última hora que previa uma linguagem mais favorável ao empréstimo. Fontes europeias citadas pelo ‘POLITICO’ indicam que a Bélgica exigiu “garantias jurídicas concretas” antes de autorizar qualquer avanço.

Para já, o compromisso encontrado permite a todos os líderes “salvar a face” e mantém nas mãos de De Wever o poder de veto sobre futuras decisões. O dossier regressará à mesa em dezembro — com a ajuda à Ucrânia ainda dependente de um consenso europeu que, por agora, parece distante.

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