Explicador: a Ucrânia tem condições de entrar na UE até 2030? Os obstáculos, as metas e os desafios de Kiev

Desde 2019, a Constituição ucraniana consagra o “rumo irreversível” para a plena adesão à União Europeia, obrigando Kiev a prosseguir a integração económica e institucional

Francisco Laranjeira
Novembro 6, 2025
12:22

Há dois anos, Rava-Ruska, uma pequena cidade no oeste da Ucrânia com cerca de oito mil habitantes, viveu um momento histórico com a inauguração de uma ligação ferroviária direta a Varsóvia. Desde então, o comboio opera com 90% da capacidade, tornando-se um símbolo da aproximação do país à União Europeia. Segundo o ‘Kyiv Post’, o projeto exigiu superar décadas de corrupção e entraves burocráticos, além de adaptar a infraestrutura ferroviária ucraniana aos padrões da UE.

Em plena guerra, a Ucrânia conseguiu, em 2023, estabelecer linhas férreas de bitola europeia que ligam Mukachevo à Hungria e à Eslováquia, e Rava-Ruska à Polónia, com planos de estender o trajeto até Lviv em 2027. A expansão permitirá conexões diretas com Viena, Cracóvia e Varsóvia, consolidando a integração física e simbólica com a Europa.

Rumo europeu inscrito na Constituição

Desde 2019, a Constituição ucraniana consagra o “rumo irreversível” para a plena adesão à União Europeia, obrigando Kiev a prosseguir a integração económica e institucional. Antes da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, Moscovo representava quase um terço do comércio ucraniano. Hoje, o quadro é oposto: em 2024, mais de 50% das trocas comerciais da Ucrânia são com a UE.

Na semana passada, entrou em vigor um novo acordo comercial entre Kiev e Bruxelas, após dois anos de negociações. O pacto substitui preferências temporárias e cria regras de longo prazo, com redução gradual de tarifas, harmonização com os padrões europeus de produção e salvaguardas para setores sensíveis, como o açúcar, as aves e os cereais.

Contudo, de acordo com o ‘Kyiv Post’, a Hungria, a Polónia e a Eslováquia mantêm reservas face à integração da Ucrânia e continuam a proibir a importação de grãos e outros produtos agrícolas ucranianos, alegando concorrência desleal. Bruxelas insiste que o novo acordo já protege adequadamente os produtores nacionais.

Energia: independência de Moscovo e ligação à rede europeia

A integração energética constitui outro marco. Em 2017, a Ucrânia iniciou o processo de desconexão do seu sistema elétrico da Rússia e da Bielorrússia, com o objetivo de se ligar à rede continental europeia, num esforço partilhado com a Moldávia. Após cinco anos de preparação, o teste de isolamento da rede estava previsto para 24 de fevereiro de 2022 — o mesmo dia em que a Rússia iniciou a invasão em larga escala.

Apesar da ofensiva, o sistema elétrico ucraniano resistiu e, a 26 de fevereiro, Kiev solicitou a sincronização de emergência com a rede ENTSO-E da Europa Continental. Três semanas depois, em 16 de março de 2022, a ligação foi formalizada, marcando uma rutura definitiva com a dependência energética de Moscovo.

Em 2024, tanto a Ucrânia como a Moldávia completaram o primeiro inverno sem gás russo. Kiev encerrou o trânsito de gás proveniente da Rússia no final desse ano, enquanto a Moldávia expôs vulnerabilidades na região separatista da Transnístria, ainda sob influência russa.

Adesão à UE trava entre vetos e reformas

Embora a Ucrânia e a Moldávia tenham obtido o estatuto de países candidatos em 2022, o processo de adesão continua bloqueado. As negociações estão divididas em seis grupos temáticos, abrangendo áreas como Estado de direito, economia, agricultura e ambiente. Kiev já concluiu avaliações técnicas em domínios como energia, transportes e concorrência, mas o primeiro grupo — centrado na independência judicial — está parado devido ao veto da Hungria.

A presidente moldava, Maia Sandu, apelou à União Europeia para manter “clareza e compromisso” com o alargamento, alertando para o risco de estagnação. Segundo o ‘Kyiv Post’, cresce entre diplomatas europeus o pessimismo quanto à possibilidade de adesão ucraniana até 2030, com previsões que já apontam para 2040.

Enquanto a guerra continua a devastar o país, o caminho da Ucrânia rumo à UE permanece firme, mas condicionado. As exigências de uma democracia estável, de um Estado de direito funcional e de uma economia de mercado consolidada continuam a ser os principais desafios de um processo que, embora irreversível, avança com a lentidão das negociações e o peso da guerra.

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