Explicador. A máquina de propaganda do ICE e o exército de influencers que quer recrutar jovens

Agência federal aposta numa vasta rede de influencers para glorificar rusgas policiais e captar novos agentes, num plano que o próprio Governo americano designa como “recrutamento em tempo de guerra”

Francisco Laranjeira
Fevereiro 3, 2026
12:47

O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos está a transformar as detenções de imigrantes num produto de comunicação concebido para chocar, mobilizar e recrutar. Através de uma estratégia agressiva de marketing digital, a agência federal aposta numa vasta rede de influencers para glorificar rusgas policiais e captar novos agentes, num plano que o próprio Governo americano designa como “recrutamento em tempo de guerra”.

De acordo com o ‘El Confidencial’, esta viragem na comunicação do ICE ganhou força com o segundo mandato de Donald Trump, que voltou a colocar a luta contra a imigração no centro da sua agenda política. Durante anos, a agência limitou-se a comunicados institucionais e anúncios de serviço público, mas passou a recorrer a formatos próprios das redes sociais, explorando a lógica da viralidade e da economia da atenção.

Detenções transformadas em espetáculo digital

Nas plataformas digitais, contas ligadas ao ICE e à Patrulha da Fronteira publicam vídeos de rusgas acompanhados por música rap ou pop, montagens inspiradas em videojogos e mensagens provocatórias que remetem diretamente para páginas de recrutamento. Em alguns casos, são os próprios agentes que surgem nos conteúdos, registando e glorificando as operações no terreno.

Segundo o ‘El Confidencial’, esta estratégia faz parte de um plano mais amplo sustentado por um forte aumento de financiamento. No primeiro ano da presidência de Trump, o orçamento do ICE disparou de cerca de seis mil milhões para 85 mil milhões de dólares, tornando-se a agência mais bem financiada dos Estados Unidos. Com estes recursos, foi lançada uma campanha para contratar 14 mil novos agentes até 2026.

Influencers e guerra cultural

O plano, denominado “Recrutamento em Tempo de Guerra”, prevê até 100 milhões de dólares para acordos com influencers próximos do movimento MAGA, sobretudo aqueles com seguidores entre a Geração Z e os Millennials ou associados a comunidades ligadas a famílias militares, fitness ou estilos de vida considerados “disciplinados”.

Mensagens privadas obtidas pelo ‘Washington Post’ revelam discussões internas, coordenadas pela Casa Branca, sobre como tornar os vídeos das operações cada vez mais chocantes. A linguagem utilizada é direta, agressiva e sem nuances, refletindo, segundo vários especialistas, uma época marcada pela polarização e pela simplificação extrema do discurso público.

Marketing, propaganda e normalização da violência

Para Eduardo Bañón, especialista em comunicação política, esta estratégia assenta numa lógica de espetacularização que transforma a ação policial num produto audiovisual. Em declarações ao ‘El Confidencial’, o investigador sublinha que o formato não é totalmente novo e recorda que os vídeos produzidos pelo Estado Islâmico recorriam a técnicas semelhantes, com música, encenação e enquadramentos cinematográficos.

O objetivo passa por adaptar a mensagem aos formatos dominantes das redes sociais, como o TikTok e o Instagram, onde conteúdos curtos, diretos e emocionalmente carregados têm maior capacidade de retenção. Trata-se, segundo Bañón, de uma combinação entre marketing e propaganda inserida numa guerra cultural mais ampla, que procura construir a ideia de uma ameaça interna permanente.

Medo, protestos e resposta comunitária

Este clima tem coincidido com um aumento das rusgas policiais, incluindo detenções de menores e revistas, alimentando o medo entre comunidades migrantes. Em várias cidades, surgiram grupos de vigilância comunitária para alertar os vizinhos para a presença das autoridades, enquanto famílias inteiras evitam sair de casa, até para consultas médicas.

Segundo dados citados no artigo, cerca de 150 mil pessoas foram deportadas nos primeiros seis meses da administração Trump e quase 69 mil encontram-se atualmente detidas, a maioria sem antecedentes criminais. A contestação às ações do ICE intensificou-se, com protestos em várias cidades, incluindo Minneapolis, onde manifestações recentes ocorreram sob temperaturas extremas.

Recrutamento sem limites e críticas internas

Paralelamente, o ICE eliminou limites de idade para novos recrutas e passou a oferecer contratos com salários entre 50 mil e 90 mil dólares, sem exigência de diploma universitário. Os candidatos são incentivados a produzir conteúdos e transmissões em direto nas principais plataformas digitais.

Jason Houser, antigo chefe de gabinete do ICE, alertou em declarações à ‘Associated Press’ para os riscos de um afrouxamento dos critérios de recrutamento, receando consequências sociais graves e um aumento significativo de despedimentos a médio prazo. Até ao momento, não é conhecido o número de candidaturas às novas vagas.

Para Bañón, a narrativa dominante aposta num estado de exceção permanente, alimentando emoções fortes e eliminando zonas cinzentas do debate público. O efeito, conclui, é a radicalização dos seguidores, a polarização da sociedade e a normalização de práticas que levantam sérias questões democráticas.

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