Nos últimos meses, a Europa tem registado uma escalada preocupante de incursões de drones não tripulados em proximidade de aeroportos, com consequências significativas para a aviação civil. Estas ocorrências levaram ao encerramento temporário de aeroportos e ao cancelamento de voos, intensificando o debate sobre segurança aérea. Apesar de acusações direcionadas a Moscovo no contexto da guerra na Ucrânia, o governo russo nega qualquer envolvimento e as investigações ainda decorrem. O problema coloca governos e autoridades europeias sob pressão para encontrar soluções eficazes.
Por que motivo os drones se tornaram um problema crescente nos aeroportos?
Desde 16 de setembro, pelo menos 18 drones suspeitos foram detetados na Dinamarca, Suécia, Noruega e Alemanha, segundo dados do serviço de monitorização Enigma. Muitos destes incidentes ocorreram próximos de aeroportos, refletindo uma tendência preocupante já observada em aeroportos britânicos como Gatwick e Heathrow há mais de cinco anos, mas que registou um aumento acentuado este ano.
Um porta‑voz da Enigma referiu que “os dados indicam uma atividade persistente ao longo de várias semanas e potenciais incursões coordenadas em dias específicos”, embora não tenha especificado mais detalhes. Estas incursões têm impacto direto na operação aeroportuária: o encerramento temporário de aeroportos é altamente dispendioso e provoca atrasos em toda a rede de transportes aéreos europeia.
Ourania Georgoutsakou, diretora‑geral da associação Airlines for Europe (A4E), defendeu que o aumento destes incidentes deveria acelerar a implementação de protocolos para minimizar a perturbação num espaço aéreo europeu “sob pressão e fragmentado”. Entre as soluções apontadas estão a monitorização avançada, a verificação de frequências e o bloqueio de sinais (jamming).
A crescente dificuldade em identificar a natureza dos drones — incluindo o tipo, capacidades e origem — alimenta preocupações sobre a possibilidade de se tratar de uma nova forma de guerra híbrida. Eric Schouten, CEO da consultora de segurança Dyami, sublinhou que “o caos criado por esta vaga recente de incidentes pode ser um sinal de tácticas de guerra híbrida”. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou na quarta‑feira que estes episódios representam um alerta e que “a Rússia procura semear divisão na Europa”, defendendo a necessidade de respostas que vão além da defesa tradicional.
Que tecnologias estão disponíveis para combater drones?
Existem atualmente várias soluções tecnológicas no mercado, incluindo sistemas baseados em micro‑ondas, bloqueadores de sinal (jammers), lasers e até mísseis, capazes de detetar drones, interferir nas suas frequências de operação e, em alguns casos, derrubá‑los. Contudo, muitas destas tecnologias, especialmente as que envolvem neutralizar drones ativamente, apresentam riscos significativos em contextos civis.
Em 2021, a Agência Europeia para a Segurança da Aviação emitiu orientações sobre gestão de perturbações causadas por drones, e alguns governos nacionais já impuseram regulamentações restritivas quanto a voos de drones. Aeroportos têm investido em equipamentos de empresas como Dedrone, Thales e DJI Aeroscope, embora a maioria apenas disponibilize capacidades de deteção.
Recentemente, o governo alemão propôs uma lei para permitir que a polícia derrube drones em situações de risco, depois de avistamentos terem perturbado o aeroporto de Munique no início deste mês. Porém, como alerta o especialista holandês Wiebe de Jager, “é necessário ter absoluta certeza de que se trata de uma ameaça antes de intervir, e há muitos ‘ses’ e ‘mas’ nesta equação”. Muitas situações de alarme acabam por se revelar falsos positivos, reforçando a necessidade de critérios claros e seguros.
Neste contexto, a maioria dos aeroportos mantém‑se dependente de sistemas de deteção, aguardando uma política governamental mais definida.
Qual será o futuro das incursões de drones na europa?
Especialistas antecipam que as incursões de drones continuarão a crescer em frequência e sofisticação. Além dos aeroportos, outras infraestruturas civis, como portos marítimos, instalações nucleares e prisões, poderão tornar‑se alvos preferenciais.
O aumento destes incidentes evidencia vulnerabilidades na segurança aérea europeia, mas também poderá impulsionar maior coordenação e ação das autoridades. Stijn Willekens, CEO da Active Drone Security Solutions, sintetizou a perspetiva de muitos especialistas ao afirmar: “Espero que isto realmente provoque uma mudança e acelere a ação”.














