Excesso de alunos e educação inclusiva por cumprir: Fenprof alerta que quase um terço das turmas estão ilegais

Mais de um quarto das turmas analisadas pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof) não cumpre os critérios definidos pela lei da educação inclusiva, quer por terem alunos a mais, quer por integrarem estudantes com necessidades específicas acima do limite legal.

Executive Digest
Dezembro 3, 2025
17:28

Mais de um quarto das turmas analisadas pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof) não cumpre os critérios definidos pela lei da educação inclusiva, quer por terem alunos a mais, quer por integrarem estudantes com necessidades específicas acima do limite legal. Segundo avança o Público, 82,3% dos diretores admitem também não ter recursos suficientes para assegurar uma educação inclusiva efetiva, dados divulgados esta quinta-feira, no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

A Fenprof alerta para um agravamento face ao ano passado, com 27,1% das turmas constituídas “ilegalmente”. Entre estas, 12,4% excedem o limite de 20 alunos previsto para grupos com necessidades específicas, 8% ultrapassam o máximo de dois alunos nessas condições e 6,7% acumulam ambos os incumprimentos. Ana Simões, coordenadora da área de educação especial, afirmou que existem turmas com “três, quatro ou seis alunos” com necessidades específicas e que faltam espaços físicos para desdobramentos. Das 9252 turmas avaliadas, os diretores consideram que quase metade (47,6%) deveria ser reduzida.

O levantamento abrange 188.262 alunos e 19.231 docentes, dos quais apenas 1303 pertencem à educação especial. Entre os estudantes, 15.437 beneficiam de apoio específico e outros 17.132 recebem apenas “apoio indireto”, que mais do que duplicou face ao ano anterior e que a Fenprof considera insuficiente quando surge isoladamente. Para a organização, o aumento desta modalidade reflete a falta de recursos humanos qualificados.

A escassez de professores de educação especial é uma das principais preocupações — 74,3% dos agrupamentos reportam falta destes docentes — e 8,1% chegaram mesmo a deslocá-los para assumir turmas do pré-escolar ou do 1.º ciclo devido à carência de professores nessas áreas. A Fenprof classifica esta solução como “inaceitável”, alertando para o impacto no apoio aos alunos e no aumento do rácio por professor. Além disso, 71,6% dos agrupamentos não conseguiram recrutar qualquer docente por contratação de escola.

A falta de recursos estende-se aos assistentes operacionais — 76,9% dos diretores dizem não ter pessoal suficiente e estimam ser necessários mais 557 funcionários — e aos técnicos especializados, como terapeutas da fala, psicólogos ou fisioterapeutas. Cerca de 79,6% dos diretores consideram que estes profissionais são insuficientes e apontam a necessidade de mais 350 técnicos. Persistem também lacunas na intervenção precoce, assegurada por docentes sem formação específica para trabalhar com crianças dos zero aos seis anos.

Ana Simões sublinha que a situação “continua a agravar-se”, não apenas pela falta de profissionais, mas também pela ausência de espaços físicos para desdobrar turmas, concluindo que o sistema assegura o acesso, mas “não garante a equidade” para o sucesso destes alunos. As associações de pessoas com deficiência e a Confederação Nacional das Associações de Pais, presentes na apresentação dos resultados, alertaram igualmente para o impacto negativo destas falhas nas aprendizagens e no futuro dos estudantes.

A vice-presidente da Associação Portuguesa de Deficientes, Helena Rato, destacou o aumento do abandono escolar entre estes alunos, afetando sobretudo as famílias com menos recursos. Recordou ainda situações limite, como a de um pai, em Barcelos, que recorreu a uma greve de fome à porta da Segurança Social devido à ausência de apoios para jovens com necessidades específicas após a escolaridade obrigatória.

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