Europa enfrenta a “maldição japonesa”: cada vez mais idosos morrem sozinhos sem que ninguém dê por isso

Em várias cidades europeias, multiplicam-se os casos de pessoas encontradas mortas semanas, meses ou até anos após o falecimento, sem que ninguém tivesse sentido a sua falta. Um fenómeno que os japoneses designam por kodokushi — “morte solitária” — e que, olhando aos casos que se multiplicam cada vez mais, de ano para ano (e em especial nos últimos meses), está a instalar-se também na Europa.

Pedro Gonçalves
Novembro 12, 2025
16:00

Em várias cidades europeias, multiplicam-se os casos de pessoas encontradas mortas semanas, meses ou até anos após o falecimento, sem que ninguém tivesse sentido a sua falta. Um fenómeno que os japoneses designam por kodokushi — “morte solitária” — e que, olhando aos casos que se multiplicam cada vez mais, de ano para ano (e em especial nos últimos meses), está a instalar-se também na Europa.

Em Bucareste, na Roménia, uma mulher chamada Seraphine foi encontrada morta na sua casa do bairro Timpuri Noi, três semanas depois de ter falecido. “A polícia teve de arrombar a porta com um facão”, contou uma vizinha ao El Confidencial. “O cheiro era inconfundível. Mesmo que nunca tenhas sentido antes, o corpo humano reconhece esse odor — é instintivo.” A vizinha, recém-chegada ao prédio, recorda que só se cruzou com a mulher uma ou duas vezes. “Cumprimentávamo-nos, apenas isso.” Um ano depois, a casa permanece intacta, com a nota policial colada à porta, como um retrato congelado do isolamento.

Casos como o de Seraphine multiplicam-se. Em Espanha, há poucas semanas o país ficou chocado com a descoberta de Antonio Famoso, um homem de 86 anos encontrado morto na sua casa nos arredores de Valência — 15 anos após a sua morte. Os bombeiros entraram pela janela depois de um vizinho alertar para uma infiltração. Lá dentro, depararam-se com uma “imagem macabra”: o corpo em decomposição, rodeado de pombas mortas e insetos. “Cumprimentava-nos, mas nunca falava com ninguém. Quando deixou de aparecer, pensámos que tinha ido para um lar”, recordou um vizinho ao El País. As autoridades concluíram que o idoso terá morrido de causas naturais. Durante todos esses anos, a pensão continuou a ser depositada e as contas da casa eram pagas automaticamente, o que impediu que alguém desconfiasse da morte.

Em França, o problema também está a crescer. A associação Petits Frères des Pauvres, que combate o isolamento de pessoas idosas, contabilizou mais de 30 casos de mortes solitárias em 2024 — número baseado em notícias publicadas na imprensa, o que significa que a realidade pode ser ainda mais grave. Segundo a organização, “a população que afirma não ter contacto com ninguém passou de 300 mil pessoas em 2021 para 750 mil em 2024”. Em muitos casos, são homens que vivem completamente afastados da família e dos serviços sociais. A associação apela à criação de redes locais de vigilância e à introdução de sistemas de alerta, como já acontece no Japão, onde fornecedores de água e eletricidade avisam as autoridades sempre que detetam um consumo anómalo em casas de idosos.

A solidão tornou-se um problema estrutural na Europa envelhecida. De acordo com o El Confidencial, em Espanha e Itália, mais de um quarto da população com mais de 65 anos vive sozinha (22,2% e 28,6%, respetivamente). Em França, Alemanha e Áustria, a percentagem ronda os 32%, e na Finlândia chega a 36,2%. As restrições da pandemia de covid-19 agravaram ainda mais o isolamento, sobretudo entre os mais velhos. Em Madrid, por exemplo, 170 mil idosos vivem sozinhos, e cerca de 12% afirmam sentir-se profundamente sós, segundo dados de 2022.

O caso de Mohand Alouche, descoberto recentemente em França, é outro retrato perturbador desta realidade. O homem de 85 anos foi encontrado morto no seu apartamento em Montrouge, quase três anos após o falecimento. O corpo foi descoberto apenas quando oficiais de justiça se deslocaram ao local para executar uma ordem de despejo. Natural da Argélia, Mohand emigrou nos anos 70 para trabalhar na construção civil e vivia desde 2003 num apartamento social. O porteiro e os vizinhos nunca suspeitaram da ausência. Só quando as rendas deixaram de ser pagas é que os serviços reagiram. “É provável que sofresse da síndrome de Diógenes — isolamento extremo, acumulação e recusa de ajuda”, explicou Pierre Ludosky, presidente da associação Survivre à l’enfance, ao Le Parisien.

O El Confidencial cita ainda investigadores britânicos que alertam para uma tendência semelhante no Reino Unido. Um estudo da Universidade de Oxford, baseado em dados oficiais, revela que entre 1979 e 2020 aumentaram as mortes classificadas como “não atendidas” — indicadores indiretos de falecimentos em solidão. “O aumento destas mortes sugere um colapso mais amplo das redes de apoio social”, afirmou Lucinda Hiam, autora do relatório Un silencio mortal.

Para a professora Holly Nelson-Becker, da Universidade Brunel de Londres, é essencial distinguir “morrer sozinho” de “morrer em solidão”. “O meu pai morreu tecnicamente sozinho, mas sentiu-se amado e acompanhado até ao fim”, recordou ao jornal. “A questão é saber se as pessoas têm, ou não, apoio humano nos seus últimos dias.”

À medida que o continente envelhece e os laços de vizinhança se fragilizam, os casos de mortes solitárias tornam-se um espelho inquietante da sociedade moderna — uma Europa onde, por vezes, pode demorar 15 anos a dar pela falta de um vizinho morto.

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