A União Europeia enfrenta um dos maiores desafios geopolíticos da sua história recente após Donald Trump ter reafirmado, de forma explícita, a intenção de assumir o controlo da Gronelândia. A escalada norte-americana intensificou-se depois da operação militar dos Estados Unidos para capturar Nicolás Maduro na Venezuela, com o presidente norte-americano a justificar a ambição territorial com razões de segurança nacional. “Os Estados Unidos precisam da Gronelândia por motivos de segurança nacional”, escreveu Trump, numa mensagem que antecedeu a imposição de tarifas a Dinamarca e a países europeus que reforçaram a presença militar no território autónomo em apoio a Copenhaga e a um projeto europeu para Nuuk.
O alerta consta de um texto publicado pelo European Council on Foreign Relations, assinado por Jana Kobzova, Mark Leonard, Jim O’Brien, Jana Puglierin, Jeremy Shapiro, Vessela Tcherneva e Katrine Westgaard, divulgado esta segunda-feira, 19 de janeiro, e que identifica dez instrumentos concretos — descritos como “cartas” — que a Europa ainda pode usar para travar uma eventual anexação norte-americana da Gronelândia, aumentando os custos políticos, económicos e estratégicos de uma ação unilateral por parte de Washington.
Uma mudança de paradigma na relação transatlântica
A importância estratégica da Gronelândia para os Estados Unidos não é nova. Desde o século XIX que Washington pondera a aquisição do território e, desde 1951, beneficia de amplo acesso militar ao abrigo do Acordo de Defesa com a Dinamarca. No auge da Guerra Fria, os EUA chegaram a operar 17 bases e a manter mais de 10 mil militares na ilha. Hoje, essa presença resume-se a uma única base com um contingente reduzido, num contexto em que analistas norte-americanos alertam para a crescente influência da Rússia e da China no Ártico.
A obsessão de Trump com a Gronelândia surgiu ainda no seu primeiro mandato, quando propôs publicamente a compra da ilha. Na altura, a ideia foi encarada por muitos líderes europeus como uma excentricidade. No entanto, o interesse persistiu: em 2020, Washington reabriu um consulado em Nuuk e, já no regresso à Casa Branca em 2025, Trump passou a enquadrar a aquisição do território como uma exigência de segurança nacional, acusando a Dinamarca de não defender adequadamente a ilha.
Europa tentou negociar, mas Trump recusou
Perante a pressão norte-americana, a Dinamarca apresentou propostas de maior cooperação militar, expansão do acesso a bases e infraestruturas, reforço da coordenação de segurança no Ártico e abertura a convergência em investimentos mineiros. O objetivo era eliminar qualquer justificação plausível para uma aquisição territorial. Trump rejeitou todas as propostas, sinalizando que o acesso, os minerais ou a cooperação não eram o verdadeiro objetivo.
Em dezembro, o Serviço de Informações de Defesa da Dinamarca classificou discretamente os Estados Unidos como uma potencial ameaça à segurança nacional, uma decisão sem precedentes para um aliado histórico de Washington. Dias depois, Trump nomeou o governador da Luisiana, Jeff Landry, como enviado especial dos EUA para a Gronelândia, e designou o investidor Thomas Dans para liderar a Comissão de Investigação do Ártico, reforçando a centralidade do território na estratégia norte-americana. O próprio presidente foi taxativo: “Qualquer coisa que não seja [a anexação] é inaceitável”.
As dez cartas que a União Europeia pode jogar na Gronelândia:
Construir explicitamente uma coligação europeia para o Ártico
Os autores defendem a criação de uma coligação permanente de Estados europeus e parceiros — à semelhança do grupo de contacto para a Ucrânia — dedicada ao Ártico. Esta estrutura, que poderia incluir Canadá, França, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido e países nórdicos e bálticos, teria como missão coordenar segurança, investimento e comunicação política, de forma visível, formal e contínua.
Europeizar a presença de segurança na Gronelândia
Uma presença europeia permanente, enquadrada na proteção de infraestruturas, vigilância climática e operações de busca e salvamento, alteraria substancialmente o contexto estratégico. França, Alemanha, Países Baixos, Noruega e Suécia já destacaram pequenos contingentes, mas um reforço gradual enviaria um sinal inequívoco a Washington, sem tentar igualar o poder militar dos EUA.
Consolidar o apoio político a Dinamarca e à Gronelândia
Os Estados europeus são chamados a tratar a Dinamarca como um Estado da linha da frente, com declarações conjuntas regulares da UE, visitas frequentes a Copenhaga e Nuuk, cimeiras bianuais e uma ligação explícita entre a integridade territorial dinamarquesa, groenlandesa e europeia. É ainda defendida a abertura a uma relação mais estreita entre a Gronelândia e a UE, incluindo uma eventual adesão.
Preparar sanções associadas a uma eventual ocupação
A Comissão Europeia ou uma coligação de Estados deve preparar — e deixar transparecer — um regime de sanções direcionado a intermediários financeiros, indivíduos e transferências económicas que beneficiem de uma ocupação norte-americana, sobretudo quando envolvam financiamento opaco ou ligações a terceiros países como Rússia ou China.
Condicionar a cooperação no Ártico ao respeito pela soberania
A governação do Ártico, a cooperação científica e o acesso a infraestruturas devem ser claramente condicionados ao respeito pela soberania territorial. Os autores defendem que esta abordagem reposiciona o debate num quadro de regras internacionais, isolando os Estados Unidos caso avancem unilateralmente.
Usar estrategicamente a ambiguidade da NATO
Em vez de invocar automaticamente a NATO, os líderes europeus devem explorar a ambiguidade estratégica, levantando questões sobre as obrigações da aliança em caso de coerção territorial entre aliados, forçando um debate interno nos EUA sobre as consequências de uma ação desse tipo.
Reforçar massivamente o investimento europeu na Gronelândia
A UE é chamada a intensificar o investimento em energia hidroelétrica, centros de dados, transportes, comunicações, educação, investigação e projetos climáticos ligados às terras raras. Projetos com impacto económico imediato devem ser priorizados, contrastando benefícios reais com promessas especulativas de longo prazo.
Falar com os americanos, não apenas com a administração
Os autores defendem um diálogo direto com o Congresso, os media e os centros de pensamento norte-americanos, esclarecendo a opinião pública sobre a realidade da Gronelândia e desmontando exageros sobre ameaças externas. O envolvimento com setores moderados da administração e das forças armadas é considerado crucial.
Encarar a Gronelândia como um ensaio geral
A pressão sobre a Gronelândia deve ser vista como um precedente. Se os Estados Unidos puderem coagir um aliado hoje, poderão fazê-lo novamente. Os líderes europeus são incentivados a afirmar claramente que este caso terá implicações estruturais para a relação transatlântica.
Normalizar o planeamento de contingência
Por fim, é defendida a realização aberta de exercícios de simulação, revisões legais e planeamento de crise envolvendo a Gronelândia, apresentando-os como precauções normais. Caso os EUA avancem para uma ação coerciva, a resposta europeia terá de ser mais robusta, exigindo preparação antecipada.














