A guerra na Ucrânia continua a arrastar-se no leste do país, mas a principal frente de combate aos recursos financeiros da Rússia está a deslocar-se para o alto-mar. Nos EUA, o Senado prepara-se para apertar o cerco ao coração económico do Kremlin, com o objetivo declarado de cortar as rotas que alimentam o esforço de guerra de Vladimir Putin.
Numa rara demonstração de consenso bipartidário, a Comissão de Relações Exteriores do Senado americano aprovou esta semana a Lei de Sanções à Frota SHADOW, uma iniciativa liderada pelo republicano Jim Risch e pela democrata Jeanne Shaheen. A mensagem enviada a Moscovo é clara: os dias da chamada “frota fantasma” russa podem estar contados.
Segundo o ‘Kyiv Post’, a nova legislação representa uma mudança estratégica significativa, ao passar de sanções simbólicas para um ataque sistemático à infraestrutura energética que sustenta o cofre de guerra do Kremlin.
O alvo é a máquina energética russa
O projeto de lei amplia substancialmente os poderes de sanção dos Estados Unidos, atingindo diretamente os grandes projetos de gás natural liquefeito no Ártico, como o Yamal LNG e o Arctic LNG 2. Estas infraestruturas são vistas em Washington não apenas como ativos comerciais, mas como pilares centrais da estratégia de longo prazo da Rússia para manter influência no mercado energético global.
Além dos novos projetos, a legislação procura completar o isolamento da rede de exportação existente, alargando as sanções aos gasodutos Nord Stream 1 e 2. A iniciativa aproxima deliberadamente o enquadramento legal americano das normas da União Europeia, eliminando zonas cinzentas que Moscovo tem explorado para contornar restrições e manter canais informais de influência energética sobre a Europa.
De acordo com o ‘Kyiv Post’, o objetivo é apresentar uma frente ocidental coesa, reduzindo drasticamente a margem para acordos opacos e esquemas paralelos.
De sanções pontuais a um bloqueio total
Assessores do Senado admitem que a lei pretende pôr fim ao que descrevem como um jogo interminável de reações pontuais. “O Tesouro tem estado a jogar ao ‘acertar na toupeira’ com estes navios”, afirmou um assessor republicano, sublinhando que o novo enquadramento legal permite atacar todo o ecossistema que mantém a frota fantasma operacional.
A legislação passa a abranger seguradoras, empresas envolvidas na mudança de bandeira dos navios e redes de empresas de fachada sediadas em países como os Emirados Árabes Unidos ou a Turquia, estruturas que têm permitido manter em circulação petroleiros envelhecidos e fora dos radares tradicionais.
Um assessor democrata foi ainda mais direto ao ‘Kyiv Post’: quem negociar petróleo russo acima do limite de preço definido arrisca perder automaticamente o acesso ao sistema financeiro americano. A lógica deixa de ser tática para se tornar estratégica, transformando as sanções num verdadeiro bloqueio económico.
Pressão transatlântica sobre o cofre do Kremlin
Na Europa, a proposta é encarada como uma escalada necessária, num contexto em que a Rússia prevê níveis recorde de despesa militar em 2026. Autoridades ocidentais têm detetado um aumento das transferências de carga entre navios no Mediterrâneo e no mar Báltico, um sinal claro de que Moscovo continua a recorrer a operações clandestinas para escoar petróleo.
Um adido comercial da Europa de Leste explicou ao ‘Kyiv Post’ que a Lei SHADOW responde a uma exigência antiga dos aliados europeus, ao reduzir drasticamente o “mundo paralelo” em que a Rússia tem operado. Segundo a mesma fonte, esse universo torna-se agora “muito mais pequeno e muito mais caro” para Putin.
Um sinal político com peso no Senado
O diploma segue agora para o plenário do Senado, onde terá de competir com uma agenda legislativa dominada por debates sobre despesas internas. Ainda assim, o apoio transversal aumenta as probabilidades de aprovação.
Com o líder da maioria, John Thune, e o líder da minoria, Chuck Schumer, a manifestarem abertura para “esmagar o cofre de guerra do Kremlin”, o caminho até à mesa do Presidente dos Estados Unidos parece menos turbulento do que as rotas marítimas que a frota fantasma russa percorre atualmente.
Putin apostou durante anos no desgaste da atenção ocidental e na resiliência das receitas petrolíferas. O Senado americano responde agora com uma aposta própria: cortar primeiro as fontes de financiamento, mesmo que isso implique, simbolicamente, afundar os petroleiros que mantêm a guerra a flutuar.














