“Eu não quero ser francês”: O que é afinal a tendência viral antifrancesa no TikTok (e que envolve Lady Gaga)?

Nos últimos dias, uma nova tendência viral tem dominado as redes sociais, especialmente o TikTok. Nascida nos Estados Unidos, esta onda humorística e, por vezes, sarcástica, com um toque antifrancês, tem gerado polémica, mas também muitos momentos de entretenimento. Tudo começou com um clássico pop: a canção Bad Romance de Lady Gaga.

Pedro Gonçalves
Abril 4, 2025
14:52

Nos últimos dias, uma nova tendência viral tem dominado as redes sociais, especialmente o TikTok. Nascida nos Estados Unidos, esta onda humorística e, por vezes, sarcástica, com um toque antifrancês, tem gerado polémica, mas também muitos momentos de entretenimento. Tudo começou com um clássico pop: a canção Bad Romance de Lady Gaga.

A origem do fenómeno remonta a 2009, quando Lady Gaga lançou Bad Romance, um dos seus maiores êxitos. A canção contém a famosa frase: “I want your love, and I want your revenge / I want your love, I don’t wanna be friends” (em português, “Eu quero o teu amor, e quero a tua vingança/ Eu quero o teu amor, eu não quero que sejamos amigos”). A partir dessa última parte, alguns utilizadores do TikTok tiveram uma ideia criativa: trocar “friends” por “French” (franceses), criando assim uma paródia musical que pretendia ridicularizar da cultura, culinária e até do estilo de vida francês.

O remix foi inicialmente inofensivo e divertido, um pequeno escape para os americanos que, segundo analistas, procuram distrações em tempos de dificuldades internas, como as ameaças políticas, os cortes em instituições culturais e a crescente insatisfação com o sistema governamental, descrito por muitos como uma kakistocracia — ou governo dos piores.

A expansão do fenómeno: rivais europeus e o efeito viral
O humor, que começou como uma brincadeira nos Estados Unidos, rapidamente se espalhou para outros países da Europa, com Espanha, Itália e Bélgica a entrarem na onda e a partilharem vídeos com a hashtag #IDontWantToBeFrench (Eu não quero ser francês). Nestes vídeos, os participantes comparavam a sua cultura à francesa, apelando à superioridade dos seus países em vários aspectos, desde as rivalidades culinárias até a polémicas desportivas, como o famoso “cabeçada” de Zinédine Zidane em Marco Materazzi durante a final do Mundial de Futebol de 2006.

No entanto, foi neste ponto que os franceses decidiram responder à altura. Utilizando o humor e a autodepreciação, os utilizadores de TikTok em França começaram a contra-atacar com vídeos de resposta que rapidamente conquistaram o apoio da população local. A resposta mais icónica e eficiente foi, sem dúvida, a crítica ao sistema de saúde dos Estados Unidos, com muitos franceses a referirem o seu sistema de saúde pública, o famoso “Carte Vitale”, como uma vantagem inequívoca.

A “Carte Vitale” como resposta definitiva
A Carte Vitale, que é o cartão que garante o acesso dos cidadãos franceses ao sistema de saúde, tornou-se a chave da resposta francesa. “Nous au moins on a la carte vitale” (pelo menos nós temos a carte vitale), afirmaram vários utilizadores de TikTok, aproveitando a comparação com o sistema de saúde americano, considerado o pior entre os países de alto rendimento. Este simples cartão, que contém as informações necessárias para o reembolso das despesas médicas, foi apresentado como a “bala de prata” na guerra de palavras, reforçando a ideia de que, ao contrário dos EUA, a França tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo.

Este movimento ganhou uma força inesperada, criando um sentimento de orgulho nacional entre os franceses, que passaram a defender com veemência a sua cultura, alimentação e, claro, o seu sistema de saúde. “Nunca me senti tão francês na vida”, comentou um utilizador, enquanto outro acrescentou: “Obrigado, americanos, por lançarem esta tendência no TikTok. Estão a reacender o nosso orgulho coletivo em sermos franceses”.

A reviravolta política: Gabriel Attal e o orgulho francês
O fenómeno tomou ainda um rumo mais sério quando Gabriel Attal, ex-primeiro-ministro de Emmanuel Macron, decidiu juntar-se à onda. Em um vídeo publicado nas redes sociais, Attal afirmou com entusiasmo: “Eu quero ser francês”, enquanto exibia um conjunto de imagens representativas da cultura francesa, incluindo finais de Copas do Mundo, Simone Veil (uma figura emblemática da política francesa) e, claro, o prato típico francês raclette — um manjar de queijo derretido que, para muitos, é símbolo de conforto e calor humano.

O que aprendemos com esta tendência viral? Primeiro, que os franceses sabem como defender a sua cultura com humor e criatividade. Segundo, que a ironia pode ser uma faca de dois gumes, já que muitos dos que iniciaram a brincadeira com Bad Romance não perceberam que, logo após a linha “I don’t wanna be friends”, Lady Gaga canta em francês: “J’veux ton amour, et je veux ta revanche / J’veux ton amour, I don’t wanna be friends…” — o que acaba por tornar a escolha da canção questionável, já que se acaba a falar francês.

Este detalhe inesperado fez com que a tendência se tornasse um verdadeiro exemplo de ironia invertida, levando muitos a questionar a eficácia da piada original. A paródia, criada com o intuito de criticar a França, acabou por fortalecer o orgulho nacional, e talvez, até, a relação dos franceses com os seus vizinhos, especialmente os americanos.

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