Estudo alerta: Trump quer deslocar o centro político europeu para a direita e travar uma “guerra cultural”

Um relatório conjunto do Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR, na sigla inglesa) e da European Cultural Foundation conclui que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a travar uma “guerra cultural” contra a Europa.

Pedro Gonçalves
Setembro 23, 2025
10:12

Um relatório conjunto do Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR, na sigla inglesa) e da European Cultural Foundation conclui que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a travar uma “guerra cultural” contra a Europa. Através da promoção ativa de aliados políticos próximos da agenda Maga e da humilhação pública da União Europeia em instâncias internacionais, Trump procura interferir nas eleições europeias e deslocar o centro ideológico da política do continente para a direita.

O estudo argumenta que o objetivo da administração norte-americana passa por transformar a relação transatlântica em torno de valores conservadores e criar uma frente comum de populistas europeus em torno do tema da liberdade de expressão. Para os autores, as divisões entre líderes da UE e a estratégia de “alisar, agradar e distrair” na gestão de Trump têm apenas incentivado esta postura.

Baseando-se em sondagens e investigação nos 27 Estados-membros, o relatório conclui que a União dispõe de governos pró-europeus suficientes e de uma opinião pública favorável para “defender uma Europa que escreve o seu próprio guião”. A análise compara a posição europeia à do protagonista do filme The Truman Show, que, ao descobrir viver numa realidade manipulada para gerar audiências, tem de decidir se abandona ou não o único mundo que conhece.

Para Pawel Zerka, investigador do ECFR, “na guerra cultural de Trump, a Europa é o alvo”. Zerka recorda que, em fevereiro de 2025, JD Vance – então senador e aliado de Trump – acusou a Europa, na Conferência de Segurança de Munique, de “se afastar de valores fundamentais partilhados”. Foi, segundo o analista, o momento em que a guerra cultural foi “declarada abertamente”, com Washington a assumir a intenção de interferir em eleições e enquadrar as relações EUA-UE como uma “divisão de valores”.

O relatório cita casos concretos desta estratégia: a exclusão de líderes da União Europeia das negociações sobre o futuro da Ucrânia, críticas abertas a partidos tradicionais em vários países e pressão sobre as instituições de Bruxelas em negociações comerciais. É ainda referido o apoio explícito a candidatos populistas, como Karol Nawrocki, na Polónia, promovido na Casa Branca e através de redes sociais. Também discursos de responsáveis norte-americanos, como Samuel Samson, que apelou a “aliados civilizacionais” contra a alegada “censura digital, migração em massa e restrições à liberdade religiosa” na Europa, são apontados como exemplos da ofensiva ideológica.

A análise sublinha que esta guerra cultural se desenrola em dois planos: um conflito ideológico sobre os valores que sustentam a política europeia e uma luta pela dignidade e credibilidade da Europa como ator autónomo no palco global. Zerka defende que os líderes europeus devem reconhecer que estão “numa guerra cultural, com a Europa como alvo” e responder de forma firme, ainda que nem sempre confrontacional. “Por vezes é necessário ganhar tempo, mas o essencial é usar as forças próprias da União para prosperar num sistema internacional desestabilizado pela Casa Branca”, afirma.

Os autores do relatório destacam que o sentimento pró-europeu está em alta. Dados do Eurobarómetro revelam que a confiança dos cidadãos na União atingiu o nível mais elevado desde 2007, com aumentos significativos em países como Suécia, França, Dinamarca e Portugal desde o regresso de Trump à presidência. Em quase todos os Estados-membros, a maioria da população considera que o papel da UE deve ser reforçado na proteção contra crises globais e riscos de segurança. Paralelamente, cresce o apoio a uma maior autonomia europeia na defesa e na política externa, acompanhado pela perceção de que Europa e Estados Unidos representam hoje “dois modelos distintos de democracia”.

André Wilkens, da European Cultural Foundation, reforça que “It’s culture, stupid!” precisa de entrar no pensamento dos decisores europeus. Para o responsável, “o sentimento europeu não é utopia abstrata; é uma realidade feita de emoções e da disposição dos europeus para lutar por elas”.

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