O inverno em curso já entrou para os registos climatológicos como um dos mais chuvosos dos últimos 25 anos em Portugal continental, com níveis de precipitação muito acima da média em grande parte do território. De acordo com o mais recente Boletim Climatológico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o atual ano hidrológico é já o segundo mais chuvoso desde o ano 2000, com valores entre uma vez e meia e o dobro do normal em várias bacias hidrográficas.
Os dados agora divulgados revelam que, em regiões como o Alentejo Litoral, Viana do Castelo e Castelo Branco, a precipitação acumulada entre novembro e janeiro ultrapassou os 300% da média climatológica. No conjunto do país, o trimestre novembro–janeiro foi classificado como o sétimo mais chuvoso desde 1931 e o segundo mais elevado desde o início do século, com precipitação acima do normal em todo o território continental.
Janeiro destacou-se de forma particular, com um valor médio nacional de 233,4 milímetros de precipitação, o que representa cerca de duas vezes a média registada no período de referência entre 1991 e 2020, fixada nos 105 milímetros. Este volume coloca o mês como o 14.º janeiro mais chuvoso desde que há registos sistemáticos, confirmando uma tendência de chuva intensa e persistente.
A análise das estações meteorológicas indica que, em janeiro, todos os locais registaram valores superiores ao normal. Em grande parte do país, os totais oscilaram entre 150% e 300% da média mensal. Em 78% das estações avaliadas, a precipitação foi igual ou superior ao dobro do valor médio, enquanto em cerca de 40% dos locais os registos variaram entre 2,5 e 3,5 vezes o habitual.
O IPMA sublinha que esta situação contrasta com o comportamento registado na última década, recordando que, após seis anos consecutivos — entre 2017 e 2023 — com precipitação abaixo do normal, os últimos três meses de janeiro apresentaram valores claramente superiores à média. Em janeiro deste ano, foram ainda registados quatro novos extremos de precipitação diária, com destaque para Leiria, no dia 28, Cabo Carvoeiro, no dia 24, e Moncorvo, também no dia 28.
Segundo o Instituto, esta instabilidade resulta da predominância de circulação atmosférica de oeste, associada a um transporte intenso de humidade proveniente do Atlântico, criando condições favoráveis à ocorrência de episódios frequentes e persistentes de chuva.
A depressão Kristin teve também um papel relevante neste balanço climatológico, sobretudo pelos episódios de vento forte registados no final de janeiro. O relatório indica que, nos distritos de Coimbra, Leiria e Castelo Branco, foram observadas rajadas superiores a 130 quilómetros por hora. Em Soure, no distrito de Coimbra, a estação meteorológica registou mesmo um valor extremo de 208,8 quilómetros por hora no dia 29 de janeiro.
No que respeita à temperatura, janeiro apresentou uma média de 9,19 graus Celsius, cerca de 0,15 graus acima do normal. Apesar desta ligeira anomalia positiva, o mês foi apenas o 12.º janeiro mais quente desde 2000, ficando longe de valores extremos no contexto térmico.
A precipitação acumulada ao longo de várias semanas teve um impacto direto na humidade do solo. O IPMA indica que todos os concelhos do continente apresentam valores acima da capacidade de campo, com vastas áreas — sobretudo no interior Norte, na região Centro e em parte do litoral Sul — muito próximas da saturação total. Esta situação significa que os solos retêm mais água do que conseguem drenar naturalmente, aumentando o risco de cheias rápidas, deslizamentos de terras e outros fenómenos associados à incapacidade de absorção de nova precipitação.
Apesar dos valores já registados colocarem este inverno entre os mais chuvosos das últimas décadas, o IPMA sublinha que os resultados agora divulgados têm ainda carácter preliminar. A versão final do Boletim Climatológico de Janeiro será publicada após a validação completa das observações e a atualização das séries históricas.




