“Estamos a viver tempos agitados”: Mercados desafiam riscos geopolíticos e arrancam o ano em terreno positivo

Os mercados financeiros globais iniciaram o ano com um desempenho positivo, mostrando uma capacidade de resistência face a um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas e incerteza política.

André Manuel Mendes
Fevereiro 6, 2026
10:53

Os mercados financeiros globais iniciaram o ano com um desempenho positivo, mostrando uma capacidade de resistência face a um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas e incerteza política.

Apesar de episódios recentes envolvendo o Irão e a Gronelândia, os investidores têm-se mantido focados sobretudo nos indicadores macroeconómicos, nos resultados empresariais e nos fatores estruturais que influenciam a evolução das taxas de juro no médio prazo, de acordo com a análise de Hans-Jörg Naumer, Diretor de Mercados de Capitais Globais e Análise Temática da Allianz Global Investors (AllianzGI).

“Estamos a viver tempos agitados. Ainda que a política global seja cada vez mais definida por esferas de influência em constante mudança, os mercados financeiros estão atualmente a olhar mais além dos riscos geopolíticos mais comentados – como a recente turbulência em torno do Irão e da Gronelândia – e, em vez disso, a focar-se em dados macroeconómicos, resultados empresariais e fatores que impulsionam os rendimentos a médio prazo. Após um desempenho já sólido em 2025, os mercados bolsistas começaram o ano com um impulso amplamente positivo”, afirma Hans-Jörg Naumer.

Depois de um desempenho robusto em 2025, os mercados acionistas mantiveram uma trajetória positiva no arranque do novo ano. As matérias-primas também prolongaram os ganhos, com o ouro e a prata a registarem subidas ao longo de grande parte de janeiro, antes de um aumento da volatilidade nos mercados. Já o mercado obrigacionista apresentou uma evolução mais desigual: as obrigações soberanas europeias beneficiaram da descida das yields, enquanto os títulos do Reino Unido e dos Estados Unidos registaram pressão em alta.

Em paralelo, o aumento das expectativas de inflação começa a refletir-se nas maturidades mais longas da dívida pública japonesa, o que poderá incentivar os investidores japoneses a repatriar capital atualmente aplicado no exterior. Caso se concretize, este movimento poderá apoiar o iene, através da venda de dólares, e pressionar em alta as yields noutros grandes mercados obrigacionistas, nomeadamente nos Estados Unidos. Este cenário também aumenta o risco de desmontagem das chamadas carry trades, estratégias que dependem de um iene estruturalmente fraco e de baixos retornos da dívida japonesa.

Nos Estados Unidos, a política monetária continua a merecer atenção. A Reserva Federal optou por manter as taxas de juro inalteradas na mais recente reunião, uma decisão amplamente esperada e alinhada com um contexto de crescimento moderado, inflação contida e enfraquecimento do dólar. A decisão reforçou ainda a perceção de independência institucional da Fed, apesar do ambiente político e da nomeação de Kevin Warsh como futuro presidente da instituição.

Neste enquadramento, o euro tem surgido como um beneficiário relativo da fraqueza do dólar. Ainda assim, a valorização da moeda única começa a gerar debate sobre a eventual necessidade de o Banco Central Europeu intervir para conter uma apreciação excessiva, através de cortes nas taxas de juro. Para já, essa hipótese não parece iminente, uma vez que as condições macroeconómicas na zona euro permanecem favoráveis, com crescimento sólido, mercados de trabalho resilientes e inflação a convergir gradualmente para o objetivo do BCE.

Um dos principais motores do otimismo nos mercados continua a ser a inteligência artificial, em particular nos Estados Unidos, onde esta tecnologia é vista como um pilar estratégico de crescimento económico. Apesar das comparações recorrentes com a bolha tecnológica do início dos anos 2000, os analistas sublinham que o contexto atual é substancialmente diferente. A inteligência artificial já está a ser aplicada em larga escala, com impactos concretos nos modelos de negócio, na produtividade e nos processos operacionais de múltiplos setores.

Embora as avaliações bolsistas, sobretudo no setor tecnológico, sejam elevadas, a existência de fortes constrangimentos de capacidade sugere que não se trata de uma bolha especulativa clássica. A procura por poder computacional continua a superar largamente a oferta disponível, com limitações que vão desde semicondutores e equipamentos de rede até à infraestrutura energética necessária para alimentar grandes centros de dados. Uma parte significativa do investimento em expansão de capacidade está, além disso, a ser financiada internamente, graças à forte geração de caixa das grandes tecnológicas.

A época de apresentação de resultados veio reforçar este cenário. Nos Estados Unidos, cerca de três quartos das empresas que já divulgaram resultados superaram as expectativas dos analistas em janeiro, com destaque para as grandes tecnológicas, que apresentaram resultados consistentemente acima do consenso. Na Europa, o desempenho tem sido mais contido, embora a época de resultados ainda esteja numa fase inicial.

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