Enquanto Paris fervilha de incerteza política, com o governo de François Bayrou à beira da queda e Emmanuel Macron perante três cenários de risco — novo primeiro-ministro, eleições antecipadas ou até a própria renúncia —, o presidente francês decidiu abrir outra frente… no universo dos jogos de cartas.
O Campeonato Mundial de Yu-Gi-Oh! 2025, realizado este fim de semana na Maison de la Mutualité, na capital francesa, reuniu milhares de fãs do jogo de cartas colecionáveis. Foi a primeira vez que o torneio teve lugar em França, transformando Paris no centro global de um fenómeno nascido nos anos 90, a partir do manga criado por Kazuki Takahashi. Durante três dias, duelistas de mais de 30 países competiram em diferentes modalidades — desde a versão física às digitais Duel Links, Rush Duel, Speed Duel e Master Duel.
O ambiente foi de festa: jogadores disfarçados de personagens, trocas de cartas raras, estratégias partilhadas e, no fim, novos campeões do mundo. O franco-americano Julien Kehon venceu a categoria principal ao bater o alemão Tom Kleinegraeber; em Duel Links, o título foi para o alemão Philipp Thomas; no Rush Duel, para o taiwanês kama3; e no Master Duel, o trio europeu formado por Antonio “N3sh” Papa (Itália), Herman “Mist” Hansson (Suécia) e Luka Forjan (Croácia) derrotou a equipa Chaiba Corp num duelo 3 contra 3 que levantou a plateia.
Mas a maior surpresa não veio das mesas de jogo. Durante a cerimónia de abertura, Emmanuel Macron surgiu em vídeo oficial do campeonato, transmitido na rede X. Num momento inesperado, o presidente declarou: “Sei que este é um dia importante para Yu-Gi-Oh! e para todo o mundo dos jogos de cartas colecionáveis… e é um grande orgulho para nós sermos anfitriões do Campeonato Mundial e termos em França entusiastas de todo o mundo reunidos para viver a sua paixão, os seus jogos, o seu universo.”
Ainda, Macron revelou uma das suas relíquias pessoais: a icónica carta Dragão Branco de Olhos Azuis, que, segundo afirmou, guarda num lugar especial do seu gabinete. “Ainda conservo a minha carta”, disse sorridente, erguendo-a diante da câmara. O gesto, de inesperada leveza no meio da tensão política, correu mundo nas redes sociais, sendo partilhado massivamente pela comunidade de jogadores.
No fecho da sua mensagem, o presidente voltou a cruzar o universo do entretenimento com a política: “Tinha muita vontade de vos dizer: ‘Bem-vindos a França, tenham um bom jogo’. Penso em vocês e estou muito orgulhoso de que estejam no nosso país, entre nós, e espero ver-vos em breve para continuar a conversa.”
O contraste não passou despercebido. Enquanto Macron se dirige a duelistas, em Paris os números da Assembleia Nacional desenham um cenário quase inevitável de derrota para Bayrou no voto de confiança de 8 de setembro. Com a esquerda e a União Nacional de Marine Le Pen a somarem já 315 votos contrários, contra apenas 210 apoios ao governo, o primeiro-ministro parece condenado.
Analistas franceses sublinham que a queda de Bayrou abrirá três caminhos, todos de elevado risco para Macron: nomear um terceiro chefe de governo desde as últimas legislativas, dissolver a Assembleia para eleições antecipadas ou enfrentar pressões para a sua própria demissão — hipótese que o presidente rejeita, mas que Jean-Luc Mélenchon e parte da opinião pública continuam a defender.
Até lá, paira a dúvida: será Macron capaz de “tirar uma carta da manga” para estabilizar o governo, ou ficará apenas com o Dragão Branco de Olhos Azuis como arma política simbólica?






