Especialistas alertam para necessidade urgente de criar políticas sobre a reprodução no espaço

À medida que a exploração espacial comercial se aproxima da realidade e os astronautas passam mais tempo em órbita, a saúde reprodutiva deixou de ser apenas uma preocupação teórica.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 9, 2026
16:17

À medida que a exploração espacial comercial se aproxima da realidade e os astronautas passam mais tempo em órbita, a saúde reprodutiva deixou de ser apenas uma preocupação teórica. Um estudo internacional publicado na revista científica Reproductive Biomedicine Online alerta que questões relacionadas com fertilidade e gravidez no espaço devem ser tratadas com urgência, dado que a expansão das atividades humanas no cosmos está a ultrapassar as políticas existentes para proteger a reprodução. O relatório reuniu especialistas em medicina reprodutiva, ciências aeroespaciais e bioética, que destacam o espaço como um ambiente cada vez mais comum para o trabalho humano, mas simultaneamente hostil para a biologia humana.

Giles Palmer, embriologista clínico e membro da International IVF Initiative, afirmou que “há 50 anos, dois avanços científicos redefiniram o que era biologicamente e fisicamente possível – a primeira aterragem na Lua e a primeira prova da fertilização in vitro humana. Hoje, essas duas revoluções estão a convergir: o espaço tornou-se um local de trabalho e destino, enquanto as tecnologias de reprodução assistida se tornaram altamente avançadas, cada vez mais automatizadas e amplamente acessíveis.” Segundo o estudo, os avanços em tecnologias de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV) e a injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI), ainda não são acompanhados por normas industriais reconhecidas para gerir riscos reprodutivos em missões espaciais.

O relatório identifica múltiplos riscos, incluindo gravidezes não planeadas durante missões, os efeitos da radiação cósmica e da microgravidade na fertilidade, e os limites éticos de investigações futuras. Estudos com animais indicam que a exposição a radiação de curta duração pode perturbar ciclos menstruais e aumentar o risco de cancro, enquanto a análise das missões prolongadas revela lacunas significativas de dados sobre a exposição cumulativa e seus efeitos, especialmente na fertilidade masculina. O estudo sublinha que os tecidos reprodutivos são particularmente vulneráveis a danos no DNA e que a ausência de dados de longo prazo representa um “gap crítico de conhecimento”.

Embora até hoje nenhum ser humano tenha concebido ou dado à luz no espaço, o estudo aponta que tecnologias automatizadas de fertilização e criopreservação podem vir a ser compatíveis com práticas reprodutivas em ambiente orbital. Palmer destaca que a reprodução assistida tem grande potencial de adaptação, porque permite superar restrições biológicas e estruturais, já existentes em muitas situações na Terra, e que agora se repetem no espaço.

O relatório também enfatiza a necessidade urgente de estabelecer políticas internacionais. O investigador da NASA, Dr. Fathi Karouia, explicou que “à medida que a presença humana no espaço se expande, a saúde reprodutiva não pode continuar a ser uma área cega da política”. Karouia acrescentou que a colaboração internacional é essencial para colmatar lacunas de conhecimento, definir orientações éticas e proteger tanto astronautas profissionais como civis, garantindo a segurança da reprodução humana à medida que a humanidade se prepara para uma presença sustentada além da Terra.

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