A União Europeia encontra-se dividida sobre a forma de responder às ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em particular à sua tentativa de anexar a Gronelândia, território autónomo da Dinamarca. A divisão reflete duas correntes estratégicas distintas: a “escola Macron”, que defende uma postura firme, e a “escola Meloni”, que privilegia o diálogo e a contenção.
Há consenso entre os Estados-membros quanto ao objetivo comum: manter os EUA no seio da NATO e ganhar tempo para preparar a Europa para enfrentar o eventual vazio de segurança que Washington poderá deixar. Contudo, surgem visões opostas sobre a forma de pressionar a Casa Branca. Esta divergência tornou-se evidente após Trump anunciar a imposição de direitos aduaneiros de 10% sobre os produtos dos Estados-membros envolvidos no envio de tropas dinamarquesas para a Gronelândia — incluindo Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia. Caso se mantenha a oposição europeia à anexação do território, estas taxas poderão subir para 25% a partir de 1 de junho de 2026.
A escola Macron defende a linha dura
O grupo liderado por França, com Emmanuel Macron à frente, defende a utilização do Instrumento Anti-Coercivo (ACI), uma ferramenta da UE ainda não aplicada, que permitiria retaliar contra os Estados Unidos caso se comprove que o comércio foi usado como forma de coerção política. Um porta-voz comunitário explicou ao El Confidencial que “o ACI está em vigor há um ano, e sabemos como e quando usá-lo. A sua função principal é dissuasória. Por vezes, apenas mencionar a ferramenta já cumpre esse papel. O ACI é uma das ferramentas à disposição da UE.”
Para esta corrente, não ativar o ACI agora diminuiria a credibilidade europeia e comprometeria a sua função dissuasória. Esta escola, inspirada no gaullismo, defende que a Europa deve afirmar a sua soberania e projetar grandeza, mesmo na ausência de meios imediatos para o fazer.
A escola Meloni prefere diálogo e contenção
No extremo oposto, países que integram a “escola Meloni”, incluindo Ursula von der Leyen e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, defendem uma abordagem mais moderada, privilegiando o diálogo com Washington para evitar uma escalada do conflito. Giorgia Meloni contactou diretamente Donald Trump, argumentando que se trata de um mal-entendido que pode ser resolvido sem provocar uma crise significativa.
Esta abordagem já prevaleceu na negociação do acordo comercial do verão anterior, quando a UE aceitou a imposição de taxas de 15% sobre exportações europeias, além de compras de energia e produtos da indústria militar americana. Os críticos, incluindo França e defensores de uma linha dura, consideraram que estas concessões demonstraram fraqueza e poderiam encorajar novas pressões de Washington — uma tese agora reforçada pelos acontecimentos recentes.
Divisões internas e tentativa de solução intermédia
A Alemanha apresenta um caso particular: o governo está dividido entre os social-democratas (SPD), que defendem manter o ACI sobre a mesa, e os democratas-cristãos (CDU), incluindo o chanceler Friedrich Merz, que querem evitar a escalada. Berlim desempenhou um papel chave no acordo negociado por Von der Leyen com Trump em Escócia, no verão passado.
Atualmente, os líderes europeus procuram uma terceira via. Os embaixadores permanentes dos Estados-membros discutiram recentemente um possível pacote de contramedidas no valor de 93 mil milhões de euros, represálias anteriormente adiadas aquando da aceitação do acordo comercial com os EUA. Uma cimeira extraordinária está marcada para esta quinta-feira em Bruxelas, com o objetivo de coordenar posições e definir a estratégia europeia, enquanto um porta-voz da Comissão apelou à “contenção” e a uma liderança “responsável” para não agravar a situação da Gronelândia.














