Erika Kirk: A viúva de Charlie Kirk que lhe sucede como líder da organização juvenil ultraconservadora Turning Point USA

A morte de Charlie Kirk, fundador da poderosa organização juvenil ultraconservadora Turning Point USA, abriu espaço para a ascensão da sua viúva, Erika Kirk, que já assumiu a liderança da entidade.

Pedro Gonçalves
Setembro 22, 2025
13:12

A morte de Charlie Kirk, fundador da poderosa organização juvenil ultraconservadora Turning Point USA, abriu espaço para a ascensão da sua viúva, Erika Kirk, que já assumiu a liderança da entidade. Entre apelos religiosos, referências bíblicas e uma retórica que mistura perdão e confronto político, Erika surge agora como nova figura central da direita norte-americana, em especial do movimento alinhado com Donald Trump.

No domingo, durante um funeral de Estado em homenagem ao marido, Erika Kirk surpreendeu ao declarar que perdoava Tylor Robinson, acusado do homicídio de Charlie Kirk. “É o que Cristo fez, e é o que Charlie faria”, afirmou perante uma plateia que incluía o próprio presidente dos Estados Unidos. Em contraste, Donald Trump deixou claro que não partilha da mesma postura. “Ele não odiava os seus oponentes, queria o melhor para eles. Aí é onde eu discordava do Charlie. Eu odeio os meus oponentes e não quero o melhor para eles”, declarou Trump, arrancando risos da assistência, antes de acrescentar: “Sinto muito, Erika. Talvez ela consiga convencer-me de que isso não está certo, mas eu não suporto os meus oponentes.”

A relação de proximidade entre Trump e Erika não é recente. Ambos conheceram-se em 2012, quando o republicano era proprietário do concurso Miss USA e Erika foi coroada Miss Arizona. Essa ligação foi reforçada após a morte do marido. Em uma das duas chamadas que fez à viúva, Trump perguntou-lhe como poderia apoiá-la. “Ao meu marido adorava falar consigo e usá-lo como conselheiro para todo o tipo de coisas. Podemos manter isso?”, questionou Erika. “Claro”, respondeu o presidente.

Se no primeiro discurso após o atentado que vitimou o marido, Erika Kirk afirmou que “o choro desta viúva ressoará em todo o mundo como um grito de guerra”, agora a líder da Turning Point parece disposta a adotar uma postura pública mais estratégica. Ainda assim, a incógnita permanece: até que ponto manterá a sua independência política ou será instrumentalizada pela ala trumpista do Partido Republicano.

Da esfera privada ao palco político
Apesar de assumir agora um protagonismo inédito, Erika Kirk já tinha presença no espaço político e mediático. Formada em Ciências Políticas pela Universidade Estadual do Arizona, com mestrado em Direito Americano na Liberty University, a nova CEO da Turning Point mantinha um podcast, uma marca de roupa e acompanhava regularmente os eventos da organização fundada por Charlie. “Ela esteve envolvida em todas as grandes decisões, mas silenciosamente e à porta fechada”, afirmou Andrew Kolvet, porta-voz da Turning Point, citado pelo The Washington Post.

Durante anos, Erika defendeu publicamente uma visão tradicionalista do papel da mulher. “Adoro submeter-me ao Charlie. […] Como mulher, estás destinada a ser guardiã do lar, o apoio do teu marido. […] Torna-te essa esposa bíblica que deves ser e honra a ordem que Deus criou para o matrimónio”, afirmou em várias ocasiões. Agora, emerge como figura visível do movimento antifeminista, ao lado de nomes como Phyllis Schlafly, Alex Clark, Candace Owens e Riley Gaines, segundo a revista Vanity Fair. Owens, uma das vozes mais influentes do grupo, ficou recentemente no centro da polémica após difundir a teoria conspirativa sobre a identidade de género da primeira-dama francesa, Brigitte Macron — acusação que já originou uma ação judicial por parte do casal presidencial francês.

O assassinato de Charlie Kirk, que abalou o movimento conservador norte-americano, teve também um efeito mobilizador na sua organização. De acordo com o porta-voz Andrew Kolvet, a Turning Point recebeu em poucos dias “mais de 60 mil pedidos para abrir novas filiais em campus universitários”. Atualmente, o grupo conta com cerca de 3.500 estruturas em escolas secundárias e universidades de todo o país, segundo o The Boston Globe.

Mais do que um movimento de base estudantil, a Turning Point tornou-se uma das maiores máquinas de angariação de fundos da direita norte-americana, desempenhando um papel central na estratégia eleitoral do campo trumpista.

A imagem de Erika Kirk descendo do avião presidencial que transportava o corpo do marido foi amplamente comparada pela imprensa norte-americana à de Jackie Kennedy após o assassinato de John F. Kennedy. A analogia, porém, não vai além da dimensão simbólica e mediática, já que os ideais políticos de ambas não podiam ser mais distintos.

Com a viúva de Charlie Kirk à frente da Turning Point USA, a direita radical norte-americana ganha uma nova liderança, marcada pela combinação de fervor religioso, discurso antifeminista e ligação direta ao presidente Donald Trump.

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