*** Nuno Lopes, da agência Lusa ***
Lisboa, 14 fev 2026 (Lusa) — A exposição “Exploratorius”, da investigadora e artista visual brasileira Eliane Pessoa, a inaugurar no dia 26, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, debate relações entre ciência, imagem, inteligência artificial e ‘colonialidade’.
Paralelamente à exposição, será editado o livro de fotografia “Exploratorius”, sexto título da artista brasileira, que será apresentado no dia 04 de março, na Livraria A Travessa, também em Lisboa.
Em entrevista à agência Lusa, Eliane Pessoa disse que “tanto no livro quanto na exposição, as imagens não pretendem representar a natureza, mas evidenciar como ela foi historicamente construída como imagem”.
“Elas tornam visível um regime de visualidade que transforma o território em paisagem legível, ordenada e apropriável”, sob perspetivas dominantes ao longo de séculos. “Ao parecerem familiares, belas ou verosímeis, [as imagens] revelam a persistência de modelos coloniais de ver e imaginar o mundo”.
Essas imagens, que a tecnologia reproduz ou toma como ponto de partida, consubstanciam a colonialidade, no sentido de continuidadede de um processo de domínio colonial, visual, epistemológico, político e eurocêntrico que, segundo a investigadora, “precisa ser enfrentado no presente”.
O livro e a exposição constituem-se assim “espaços complementares de leitura crítica”. Não denunciam o erro da máquina, antes mostram “a coerência do sistema”.
Segundo Eliane Pessoa, “o livro propõe uma experiência sequencial e íntima”, enquanto “a exposição reinscreve essas imagens num espaço institucional marcado pela história da ciência e da classificação do mundo natural”.
Em conjunto, prossegue a investigadora, livro e mostra “expõem a continuidade dos dispositivos que moldaram a noção de natureza e convidam o público a reconhecer que aquilo que vemos como ‘natural’ é sempre o resultado de camadas sucessivas de mediação — científica, artística e tecnológica — ainda ativas no presente”.
O ponto de partida de Eliane Pessoa foi “uma reimaginação especulativa” de arquivos através da inteligência artificial.
A artista “reimagina arquivos históricos” e questiona a pretensa neutralidade científica do século XIX: “E se as imagens não servissem apenas para representar o mundo, mas para escavar criticamente as suas camadas invisíveis?”, interroga.
“Em ‘Exploratorius’, a minha atitude crítica não se dá por oposição frontal à tecnologia, mas pela exposição da sua herança. Ao alimentar sistemas de inteligência artificial com descrições produzidas no contexto das expedições naturalistas do século XIX, o trabalho evidencia que os algoritmos não operam no vazio: eles herdam arquivos, vocabulários e regimes de visualidade profundamente marcados pela ‘colonialidade’. As paisagens geradas revelam como o colonialismo de dados atua de forma silenciosa, reiterando modelos históricos de representação sob a aparência de neutralidade técnica”.
Para a investigadora “os relatórios científicos oitocentistas carregam, sim, uma visão colonial sobre o território e sobre o outro”.
Na exposição estão reproduzidas gravuras e pormenores dos diários da viagem de Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1761-1826), reunidos na obra “Viagem pelo Brasil”.
“Essas imagens deixam evidente que não existia uma neutralidade científica no sentido estrito do termo”, realçou a investigadora.
Os cientistas alemães Martius e Spix realizaram expedições científicas ao Brasil, tendo feito parte da comitiva de Maria Leopoldina da Áustria, mulher de Pedro I do Brasil, IV de Portugal.
“Vejo nesses documentos uma curiosidade científica indissociável de uma missão política e económica: recolher, classificar e enviar minerais, plantas, animais e imagens para a Europa, em particular para os gabinetes científicos e coleções do rei da Baviera. A chamada ‘neutralidade’ científica é, portanto, atravessada por interesses imperiais, por regimes de posse e por uma forma de ver que transforma o território em objeto de conhecimento e de apropriação”, acrescentou.
“A crítica proposta pela exposição consiste, portanto, em tornar visível essa continuidade. ‘Exploratorius’ não denuncia o erro da máquina, mas mostra a coerência do sistema: a fidelidade algorítmica a um imaginário que naturalizou a dominação”.
Ao criar um curto-circuito entre arquivo colonial e tecnologia contemporânea, o trabalho de Eliane Pessoa “convida o espectador a reconhecer que o colonialismo de dados não é apenas uma questão do futuro digital, mas a persistência de um projeto visual, epistemológico e político que atravessa séculos. E que precisa ser enfrentado no presente”.
Para a investigadora, o “colonialismo de dados” é “como a continuidade, em chave tecnológica, de um projeto histórico de extração, classificação e apropriação do mundo”.
Os mesmos regimes de poder que organizaram a expansão colonial, baseados na coleta de informações, na nomeação, na ordenação e na conversão da vida em conhecimento administrável, segundo Eliane Pessoa, “reaparecem hoje nas infraestruturas algorítmicas”.
“Os dados, assim como antes os territórios, corpos e paisagens, tornam-se recursos a serem explorados, normalizados e incorporados em sistemas globais de valor”, afirmou à Lusa.
Na exposição, a intervenção da inteligência artificial “ocorre de maneira direta e estrutural”, com a inserção de trechos dos diários de viagem de Martius e Spix nos sistemas: Eliane Pessoa utiliza “esses textos como base para a geração de imagens que respondem às descrições produzidas no contexto das expedições científicas do século XIX”.
Segundo a investigadora, “esse procedimento dialoga com a própria lógica histórica dessas expedições”.
“Os viajantes enviavam à Europa os seus diários, relatos escritos e desenhos, que posteriormente eram transformados em gravuras por artistas que não estavam presentes no território explorado. Essas imagens eram produzidas a partir de um imaginário prévio, baseado no repertório visual e cultural europeu, e serviam para ilustrar e consolidar os relatos sobre os trópicos e o chamado ‘Novo Mundo'”.
Eliane Pessoa estabelece assim um paralelo entre a inteligência artificial e os autores de gravuras do século XIX.
“O paralelo está no papel de mediação. No século XIX, os gravuristas que produziam as imagens das expedições não estavam nos territórios descritos; trabalhavam a partir de relatos e desenhos enviados pelos viajantes, recorrendo ao seu próprio repertório visual e cultural — europeu — para imaginar e representar os trópicos. A inteligência artificial ocupa no projeto ‘Exploratorius’ uma posição semelhante. Ela também gera imagens a partir de descrições textuais, operando sobre um repertório prévio, construído a partir de bases de dados e convenções visuais historicamente situadas”, disse a investigadora.
“Em ambos os casos”, concluiu Eliane Pessoa, “não se trata de um registo direto da paisagem, mas de uma construção mediada, que revela como os sistemas de representação produzem e estabilizam determinadas formas de ver o mundo”.








