Entre guerras externas e tensão interna: o balanço do primeiro ano do segundo mandato de Trump

Segundo a agência ‘Reuters’, ao entrar no segundo ano de mandato, o presidente americano surge cada vez menos condicionado por travões institucionais, avançando com políticas que aprofundaram divisões no país e redesenharam a posição dos EUA no mundo

Francisco Laranjeira
Janeiro 19, 2026
16:55

Donald Trump completa esta terça-feira um ano desde o regresso à Casa Branca para um segundo mandato marcado por decisões de grande impacto interno e externo, pela expansão do poder presidencial e por um agravamento da polarização política nos Estados Unidos.

Segundo a agência ‘Reuters’, ao entrar no segundo ano de mandato, o presidente americano surge cada vez menos condicionado por travões institucionais, avançando com políticas que aprofundaram divisões no país e redesenharam a posição dos EUA no mundo.

Nas últimas semanas, Trump ordenou uma ofensiva federal mais agressiva contra a imigração ilegal no Minnesota, uma operação que resultou na morte a tiro de uma pessoa desarmada por um agente federal. Supervisionou ainda uma operação militar na Venezuela destinada à captura do presidente Nicolás Maduro, retomou o controverso plano de anexação da Gronelândia, ameaçou bombardear o Irão e desvalorizou as preocupações em torno de uma investigação criminal envolvendo o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell.

“Não me importo”, afirmou Trump numa entrevista à ‘Reuters’ na Sala Oval, quando questionado sobre eventuais consequências económicas de uma investigação contra Powell. Noutra entrevista, concedida ao ‘The New York Times’ a 7 de janeiro, o presidente declarou que o único limite à sua atuação militar no exterior era “a minha própria moralidade”, reforçando a ideia de uma presidência guiada sobretudo pelo seu julgamento pessoal.

A Casa Branca sustenta que a diplomacia continua a ser a primeira opção. A porta-voz Anna Kelly afirmou que Trump pondera todas as decisões, mas mantém “todas as opções em aberto”. Segundo a mesma fonte, o envio de forças americanas para a Venezuela e o bombardeamento de três instalações nucleares iranianas, no ano passado, ocorreram após falharem tentativas de negociação com ambos os países.

Um dos presidentes mais poderosos da era moderna

Desde o regresso ao poder, a 20 de janeiro de 2025, Trump prometeu reformular a economia, a burocracia federal, a política de imigração e aspetos centrais da vida cultural americana. Grande parte dessa agenda foi concretizada, levando analistas a considerá-lo um dos presidentes mais poderosos da história recente dos Estados Unidos, de acordo com a ‘Reuters’.

No primeiro ano do segundo mandato, Trump reduziu significativamente a força de trabalho civil federal, encerrou e desmantelou agências governamentais, cortou ajuda humanitária externa, ordenou operações de deportação em larga escala e enviou tropas da Guarda Nacional para cidades governadas por democratas. Lançou ainda guerras comerciais através da imposição de tarifas a produtos de numerosos países, aprovou um vasto pacote de cortes de impostos e despesas e promoveu ações judiciais contra adversários políticos, além de restringir o acesso a algumas vacinas e de atacar universidades, escritórios de advogados e órgãos de comunicação social.

Apesar de ter prometido pôr fim à guerra da Rússia contra a Ucrânia no primeiro dia de mandato, os progressos nesse sentido têm sido limitados. Trump afirma ter encerrado oito guerras, uma alegação amplamente contestada face à persistência de conflitos em vários desses cenários.

Popularidade baixa e risco político

Como acontece com presidentes impedidos de se recandidatar, Trump enfrenta um previsível desgaste de poder à medida que avança o mandato. Continua a ser uma figura profundamente impopular junto de uma parte significativa do eleitorado, sobretudo no que toca à gestão da economia e ao custo de vida.

Uma sondagem ‘Reuters/Ipsos’ realizada na semana passada indica uma taxa de aprovação de 41%, com 58% dos adultos a desaprovar o seu desempenho. Embora o valor seja baixo para padrões históricos, não representa o pior registo do seu segundo mandato. As opiniões mantêm-se, no entanto, fortemente polarizadas, com Trump a conservar um apoio sólido entre a sua base eleitoral.

O estratega democrata Alex Floyd acusou Trump de um “total desrespeito pelo Estado de Direito e pelos mecanismos básicos de controlo e equilíbrio”, argumentando que isso tornou os americanos menos seguros e poderá levar os eleitores a penalizar os republicanos nas urnas.

O próprio presidente reconheceu à ‘Reuters’ o risco de os republicanos perderem o controlo do Congresso nas eleições intercalares de novembro, admitindo que a história raramente favorece o partido do presidente nesses atos eleitorais. Alertou ainda legisladores do seu partido para a possibilidade de uma nova maioria democrata na Câmara dos Representantes avançar com um terceiro processo de destituição.

Economia no centro das preocupações

Questionado sobre os elevados preços, principal preocupação dos eleitores, Trump reiterou que a economia é a “mais forte” da história, apesar de os dados indicarem uma inflação persistentemente elevada. Nos últimos discursos, tentou responder às preocupações com o custo de vida, mas complicou a mensagem ao classificar simultaneamente o tema da acessibilidade como uma “farsa” dos democratas.

Historiadores e analistas sublinham que todos os presidentes modernos procuraram alargar os seus poderes, mas consideram que Trump o fez a um ritmo raro, recorrendo a ordens executivas e declarações de emergência que transferiram competências do Congresso para a Casa Branca. A maioria conservadora no Supremo Tribunal alinhou em grande parte com o presidente, enquanto um Congresso controlado pelos republicanos mostrou pouca vontade de o travar.

O historiador presidencial Timothy Naftali considera que Trump exerceu o poder com menos restrições do que qualquer presidente desde Franklin D. Roosevelt. Ainda assim, estrategas republicanos admitem que a dificuldade em convencer os eleitores de que compreende os seus problemas económicos pode levar alguns parlamentares a distanciar-se do presidente para protegerem os seus mandatos.

Assessores indicam que Trump deverá intensificar viagens pelo país para promover a sua agenda económica, embora a dispersão e falta de foco das suas mensagens recentes, aliadas à forte atenção dedicada à política externa, estejam a gerar apreensão dentro do próprio Partido Republicano, conclui a Reuters.

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