Hoje trago-vos o lançamento de um modelo que promete mesmo dar que falar, o novo Volvo ES90, um fastback 100% elétrico.
Tenho como habitual o comunicado de imprensa, claro, cheio de detalhes, mas também a informação que recolhi no evento de lançamento aqui em Portugal.
E o que é que torna a análise diferente? Porque não ouvimos só os números, ouvimos a visão. Exatamente.
Temos por exemplo a embaixadora da marca – Joana Barrios – figura pública que conheço e já levei às minhas aulas que, além de divertida e out-the-box, sempre foi fã e proprietária de modelos da marca.
A Volvo fala muito no ‘Life in Balance’, vida em equilíbrio. A grande questão é como é que um carro, um objeto, consegue entregar uma promessa tão abstrata? Vamos ver se o design, a tecnologia, a sustentabilidade, se tudo isto se conjuga para criar o tal refúgio em movimento.
Então vamos começar pela perspetiva mais humana da Joana Barrios. Na apresentação, ela diz que não é uma especialista. Ela define-se como uma utilizadora e fã de longa data.
E a história dela é curiosa. A relação com a marca começou por necessidade, mas depois evoluiu para algo mais profundo. E ela foca-se logo numa ideia que, para mim, é o ponto central de toda a estratégia da Volvo – a redefinição do luxo – Exatamente. A tese da Joana é que o luxo moderno é imaterial. Não se trata dos logótipos, de mostrar o que se tem; trata-se de tempo, de segurança, de qualidade, de longevidade. É uma ideia muito, muito alinhada com a identidade escandinava.
Discreta, focada no essencial. Mas sejamos honestos, quem compra um automóvel que começa nos 55.000 € mais IVA também não quer também um pouco de ostentação? Não estarão a arriscar afastar um cliente…mais tradicional?
Diria que é um risco assumido, sem dúvida, mas parece-me uma aposta calculada. A Volvo está a ver que o mercado de luxo está a dividir-se. Há o luxo da ostentação e há um “novo luxo”, o do bem-estar, do consumo consciente. E eles estão a posicionar-se claramente neste segundo campo. Se vai resultar em todo o lado, isso já é outra conversa, mas é corajoso.
A Joana descreve o carro ideal como um companheiro versátil, veloz, seguro, divertido, descontraído e composto. E depois acrescentou um detalhe que adorei: A importância de ter um sistema de som irrepreensível para poder ouvir música aos berros, como ela diz, mas com qualidade.
Para quem não é especialista em automóveis “safa-se mesmo”. Bem – diz que é difícil definir o cliente Volvo por dados demográficos, que o que os une é imaterial, uma coisa interior, mais do que exterior.
E, para uma equipa de marketing, isto é, uma faca de dois gumes. Por um lado, é uma oportunidade de ouro. Criar uma comunidade baseada em valores é muito mais forte do que lealdade a um produto. Por outro lado, é um pesadelo. Porque vender um sentimento é muito mais difícil do que vender mais cavalos de potência. Exige uma comunicação muito mais sofisticada.
E essa sofisticação tem de se refletir no design, não pode “ser só conversa”. Olhando para o carro, eles falam numa fusão. Elegante como um sedan, forçatilidade de um fastback e robustez de um SUV; é muita coisa junta.
É, em minha opinião a receita do momento, sim, mas a execução parece-me muito bem conseguida.
Olhamos para os faróis com o martelo de Thor reinterpretados, mais finos, mais digitais, mas o número que me saltou mesmo à vista no comunicado foi o do coeficiente aerodinâmico: 0,25. Para um automóvel destas dimensões, é um valor notável, o melhor na história da marca. E isso tem um impacto direto na autonomia, claro.
Direto e mensurável, não é só para a ficha técnica. E, na prática, para o utilizador, o que é que este design Fastback o ajuda? A solução para um problema crónico dos sedãs de luxo. A mala, acessibilidade, com uma porta da bagageira de grandes dimensões, o acesso aos 424 L de capacidade é muito mais fácil. E depois o interior, descrevem-no como uma verdadeira sala de estar Escandinava – será o desafio da Volvo para a experiência ao volante?
E a distância entre eixos de 3,1 m é enorme, traduzem muito espaço para as pernas nos bancos posteriores.
O gestor de produto, João Pereira, focou-se em duas inovações do interior que me pareceram curiosas. A primeira é o teto panorâmico eletrocromático , o vidro que fica opaco, com um toque num botão. Parece um gadget, mas imagino que, num dia de sol forte em Portugal seja mesmo útil. Mais do que útil, reforça a ideia de controlo sobre o ambiente. É tecnologia subtil ao serviço do conforto.
E a segunda inovação que ele mencionou, o conforto acústico, talvez seja ainda mais importante para essa sensação de refúgio – tornar o habitáculo numa das “cabinas” mais silenciosas que a marca já fez. Não é um efeito pequeno e tem um efeito secundário. Faz com que o sistema de som, da Bowers and Wilkins de 25 altifalantes brilhe ainda mais no silêncio; no fundo, é a “tela em branco” para o som de qualidade.
E tudo isto “embrulhado” numa mensagem forte de de sustentabilidade. O interior é leather free, estofos nórdicos, falam em alumínio reciclado, aço reciclado, madeira certificada. A minha pergunta é: o consumidor final valoriza mesmo isto ou é algo que as marcas sentem que têm de fazer para “para a fotografia”?
Considero que estamos num ponto de viragem. Há 5 anos, provavelmente era só para ficar bem na fotografia. Hoje, o público que procura a Volvo, é um fator de decisão. Pode não ser o primeiro, mas pode ser o fator de desempate. E, mais importante, reforça a coerência da marca. Não se pode vender um automóvel elétrico como o futuro, se ele for construído com métodos do passado.
Ou seja, a sustentabilidade dos materiais valida a promessa da motorização.
Então, temos este refúgio sustentável, mas um refúgio que nos deixa ansiosos e presos a um carregador durante horas não é luxo nenhum.
E é aqui que entra a grande inovação técnica: a arquitetura de 800 V. E o João Pereira foi muito claro nisto. A indústria está a passar da ansiedade da autonomia para a conveniência do carregamento; ou seja, já não interessa tanto se o carro faz 500 ou 600 km mas sim o quão rápido consigo recuperar 200 ou 300 km para seguir viagem.
E os números que refere são de facto impressionantes. Recuperar 300 km de autonomia em 10 minutos e carregar de 10 a 80% em cerca de 20 minutos.
Isto muda as regras do jogo para quem faz viagens longas… completamente.
E a tecnologia de 800 V, que ainda é rara no mercado, tem outras vantagens. Permite usar cabos mais finos, o que reduz o peso do carro … em cerca de 20 kg, além de permitir também aumentar a potência em 25% em comparação com uma arquitetura de 400 V. Portanto, é uma cascata de benefícios.
E no meio desta tecnologia toda, eles anunciam algo que me deixou intrigado, o passaporte digital de bateria; usam a palavra mágica – blockchain – para rastrear as matérias primas: o lítio, o cobalto, desde a mina até ao carro. Honestamente, isto pode. soar-me um pouco a Buzz word do marketing.
Talvez fosse mais interessante neste artigo dizer somente a palavra Blockchain e o público que me acompanha ficava impressionado pois uso termos do momento. Mas, não sou assim, de todo. Vamos compreender o tema. Qual é o impacto real?
É uma pergunta perfeitamente justa e a resposta à minha dúvida, é… ambos. A curto prazo, é sem dúvida uma ferramenta de marketing e de posicionamento de marca fortíssima. A Volvo está a dizer:
“Nós não só vendemos um carro limpo, como garantimos que a sua produção foi eticamente responsável”.
O impacto pode ser muito real e financeiro. Imaginemos o mercado de usados daqui a 5 ou 7 anos ter um automóvel com um suporte inviolável que comprova a origem ética da bateria, mas também o seu estado de saúde, os ciclos de carga. Esse automóvel pode valer significativamente mais do que outro devido ao selo histórico. De repente, a Buzz Word transforma-se num ativo que preserva o valor do veículo.
Essa perspetiva do mercado de usados é realmente interessante e essa ideia de transparência leva-me diretamente ao pilar central da Volvo: a segurança.
Não seria um Volvo sem uma nova tecnologia de segurança. E o ES90 estreia a nova geração da Safespace Technology. O nome é marketing, o hardware é real. Cinco radares, sete câmaras, 12 sensores. É um arsenal de sensores a monitorizar tudo à volta do ES90….a 360º.
Mas para além dos sistemas que já conhecemos, eles destacaram uma funcionalidade que me impressionou: a deteção de ocupantes. O sistema consegue detetar movimentos mínimos, como a respiração de um bebé, para evitar que alguém seja esquecido no carro. É incrível, mas também me faz pensar, a tecnologia está a tornar-se uma muleta para a nossa própria distração. Onde é que traçamos a linha?
Esse é um debate filosófico, da condução moderna. A abordagem da Volvo, historicamente tem sido de que a tecnologia deve ser o anjo da guarda invisível. Não se trata de o ES90 conduzir por nós, mas de intervir naquele milissegundo em que o acidente pode acontecer – uma rede de segurança. Esta funcionalidade é o exemplo perfeito. Não interfere na condução, mas previne um tipo de acidente muito específico e devastador que, infelizmente, acontece. Não é uma muleta, é uma rede de segurança para o impensável.
Visto dessa forma, faz todo o sentido e toda esta aposta na eletrificação e na tecnologia parece estar a resultar, pelo menos em Portugal, e muito!
Os dados de mercado que partilharam são surpreendentes. A nível global a marca teve uma ligeira quebra – transversal na industria – mas na Europa continua a crescer. E, em Portugal o cenário é ainda mais otimista. Quase 80% das vendas da Volvo em Portugal já são de modelos eletrificados.
E o número que me deixou pensativo foi este: Os elétricos puros já representam 43% do total de vendas da marca em Portugal. É o dobro da média global da própria Volvo.
O dobro e o sucesso do EX30 que se tornou rapidamente no terceiro carro elétrico mais vendido no país, só demonstra que há aqui um “apetite enorme” por este tipo de produto (… o artigo emprega muitos termos culinários … mas não é fome… mas estabelecer um paralelismo fácil e percetível).
Claramente a aposta da Volvo na eletrificação total encontrou um terreno extremamente fértil em Portugal e a estratégia de preços do ES90 mostra que estudaram bem o mercado. O preço de entrada de 55.521 € mais IVA não foi escolhido ao acaso.
Foi pensado para as empresas, para ficar abaixo das barreiras da tributação autónoma, colocando o ES90 numa posição muito competitiva para as frotas empresariais, que são uma fatia importantíssima do mercado. É uma jogada pragmática, mostra que, para além da filosofia eles também sabem fazer as contas.
E o anúncio do lançamento do EX60 em 2026 mostra que o plano está bem definido… e em execução
Se tivesse de resumir, o que é que o Volvo ES90 representa, parece-me que é muito mais do que um novo modelo. É quase um manifesto sobre rodas. A materialização de uma visão onde o luxo é equilíbrio, é tempo, é a consciência ambiental e é uma tecnologia que nos serve de forma quase invisível.
Pensem comigo numa reflexão que vai para além da própria Volvo. Na apresentação foi dito que é difícil definir o cliente Volvo porque o que os une é imaterial.
À medida que os automóveis evoluem para se tornarem plataformas de software com uma produção transparente garantida por tecnologias como o blockchain, a questão que se coloca é: será que a nossa relação com o automóvel está a deixar de ser sobre a posse de um objeto para se tornar numa espécie de subscrição a um ecossistema de valores e serviços; ou seja, compramos o automóvel ou estamos a comprar a entrada num clube que partilha da nossa visão do mundo?
Fontes:
Os materiais fornecidos consistem num comunicado de imprensa e excertos das notas do autor que detalham o lançamento e as especificações do novo Volvo ES90, um fastback 100% elétrico.
























