Empresas perdem milhões com faturas falsas geradas por inteligência artificial

Várias empresas em todo o mundo têm sido vítimas de um novo tipo de fraude que combina uma técnica antiga com tecnologia de ponta: a falsificação de recibos através de IA

Executive Digest
Outubro 28, 2025
11:15

Nos últimos meses, várias empresas em todo o mundo têm sido vítimas de um novo tipo de fraude que combina uma técnica antiga com tecnologia de ponta: a falsificação de recibos através de inteligência artificial (IA) generativa. Plataformas como as da OpenAI e da Google tornaram extremamente fácil criar faturas falsas tão realistas que chegam a apresentar “rugas no papel”, confundindo até os sistemas mais sofisticados de auditoria interna.

De acordo com dados recolhidos pelo Financial Times junto de fornecedores de software de gestão de despesas, estas falsificações estão a gerar prejuízos de milhões. A AppZen, uma das principais empresas do setor, revelou que os recibos falsos criados por IA representaram cerca de 14% dos documentos fraudulentos detetados em setembro de 2025 — uma subida abrupta face a zero por cento no mesmo período do ano anterior. Já o grupo fintech norte-americano Ramp detetou, através do seu novo sistema de verificação, mais de um milhão de dólares em faturas fraudulentas num espaço de apenas 90 dias.

Segundo Chris Juneau, vice-presidente sénior da SAP Concur, “estes recibos falsificados por IA tornaram-se tão bons que dizemos aos nossos clientes: não confiem nos vossos olhos”. A empresa, uma das maiores plataformas de gestão de despesas do mundo, tem vindo a reforçar os seus mecanismos de deteção automática de fraudes. Um estudo da Medius revelou que cerca de 30% dos profissionais financeiros dos Estados Unidos e do Reino Unido observaram um aumento significativo de recibos falsificados após o lançamento do modelo GPT-4o da OpenAI.

O aumento desta fraude coincidiu com o lançamento, em março, da nova versão do modelo de geração de imagens do GPT-4o. A OpenAI garantiu ao Financial Times que “toma medidas quando as suas políticas são violadas” e que as imagens geradas contêm metadados que indicam a sua origem. No entanto, esses metadados podem ser facilmente removidos por utilizadores ao tirar capturas de ecrã ou fotografias, o que torna a deteção mais difícil.

“Esta não é uma ameaça futura; já está a acontecer”, alertou Sebastien Marchon, diretor executivo da Rydoo. “Embora atualmente apenas uma pequena percentagem de recibos não conformes seja gerada por IA, isto só vai crescer.” A SAP revelou ainda que 70% dos diretores financeiros acreditam que os seus funcionários já usaram IA para falsificar despesas de viagem ou recibos.

Mason Wilder, diretor de investigação da Association of Certified Fraud Examiners, resumiu o fenómeno: “Não há qualquer barreira de entrada para as pessoas fazerem isto. Não precisam de competências tecnológicas como há cinco anos, quando era necessário usar o Photoshop.” Assim, a inteligência artificial veio “democratizar o negócio das despesas falsas”, tornando a fraude acessível a qualquer funcionário com acesso a um chatbot.

A grande questão que permanece é o impacto destas falsificações nas empresas cujos nomes aparecem nos recibos falsos. Quando esses documentos chegam à contabilidade e são submetidos às autoridades fiscais, como a Autoridade Tributária portuguesa, os sistemas podem questionar o pagamento de impostos em falta — um problema que começa a preocupar tanto empresas como o próprio fisco.

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