As eleições presidenciais de janeiro têm um candidato improvável: Manuel João Vieira. O músico e líder dos Ena Pá 2000 apresentou as mais de 7.500 assinaturas necessárias — podendo mesmo ter chegado às nove mil — para formalizar uma candidatura assente no humor absurdo e na paródia ao discurso político tradicional.
Entre promessas de vinho a sair das torneiras, Ferraris para todos e uma cidade futurista chamada Vieirópolis, Vieira diz que “só desiste se for eleito”.
O anúncio, indicou a publicação ‘Euronews’, surge num momento de cansaço do eleitorado perante cinco décadas de alternância entre PS e PSD, cenário que contribuiu para o crescimento do Chega e para a ascensão de figuras independentes, como Henrique Gouveia e Melo. É neste contexto que a candidatura de Vieira, inicialmente risível, pretende também levar o público a refletir sobre o estado do debate nacional.
Propostas surrealistas e performance mediática viral
Numa entrevista à ‘SIC Notícias’, Vieira surgiu com um chapéu de comandante, numa alusão ao estilo de Gouveia e Melo. Durante 20 minutos, apresentou o seu catálogo de propostas satíricas, culminando num hino de campanha com versos deliberadamente provocatórios.
A intervenção rapidamente se tornou viral nas redes sociais, com milhares de partilhas e memes. Algumas ideias replicam campanhas anteriores, outras surgem renovadas, mas todas mantêm a mesma linha de humor absurdo:
• construção de Vieirópolis, uma cidade de 10 milhões de habitantes gerida por IA
• vinho canalizado em todas as casas e fontes de bagaço nas ruas
• uma prostituta em cada esquina, patinadoras russas para todos os homens e dançarinos cubanos para todas as mulheres
• um Ferrari para cada português
• um “plano” para uniformizar o tom de pele da população através de tratamentos de clareamento e escurecimento
Apesar do tom jocoso, o candidato abordou temas sérios, justificando a corrida presidencial com preocupações sobre o “crescimento do fascismo” e a ausência do aquecimento global nas agendas políticas.
Do humor ao ativismo: quem é Manuel João Vieira
Nascido em 1963, Manuel João Vieira é filho do pintor João Rodrigues Vieira e seguiu carreira nas artes visuais, como artista plástico e professor. Ficaria, no entanto, conhecido sobretudo pela música, enquanto vocalista dos Ena Pá 2000, banda fundada em 1984 e marcada por um estilo irreverente, absurdo e frequentemente obsceno.
Além do projeto principal, atua sob pseudónimos como Lello Marmello ou Lello Minsk e mantém várias bandas paralelas, como os Corações de Atum e os Irmãos Catita.
Comédias que viraram candidaturas: de Coluche a Zelensky
De acordo com a ‘Euronews’, a candidatura de Vieira insere-se numa tradição internacional de humoristas que usam eleições para provocar abalos políticos. Em 1980, o francês Coluche avançou para as presidenciais com o lema “se nos tomam por imbecis, vamos então votar num imbecil”, chegando aos 10% nas sondagens antes de abandonar a corrida devido a pressões, ameaças e alegado boicote mediático.
Mais tarde, a comédia voltaria a cruzar-se com a política em caminhos inesperados: Volodymyr Zelensky, figura popular na televisão ucraniana, acabaria eleito presidente e tornaria-se líder em plena invasão russa. Nos anos 1980, outro ator, Ronald Reagan, atingira já a presidência dos EUA, marcando decisivamente a história do final do século XX.














