‘Donald Trump da Argentina’ ou “rei da selva”: quem é Javier Milei, o polémico novo Presidente de extrema-direita?

Economista ultraliberal, que se autodenomina “o rei da selva”, conseguiu o que outros não conseguiram: invadir o espaço dominante entre o peronismo do partido ‘Frente de Todos’ e os seguidores do ex-presidente Mauricio Macri, representado pelo partido ‘Juntos por el Cambio’

Francisco Laranjeira
Novembro 20, 2023
12:40

Javier Milei foi eleito este fim de semana o novo presidente da Argentina: em apenas alguns anos, o populista de direita deixou de ser um comentador televisivo com elevados níveis de audiência, depois de uma carreira como professor universitário e no sector bancário, devido às suas explosões desenfreadas contra uma “casta política” responsável pelos problemas económicos da Argentina para se tornar o novo presidente do país. Com quase 87% das urnas de voto apuradas, os resultados foram de 56% para Javier Milei, o candidato da extrema-direita, e 44% para Sergio Massa.

O economista ultraliberal, que se autodenomina “o rei da selva”, conseguiu o que outros não conseguiram: invadir o espaço dominante entre o peronismo do partido ‘Frente de Todos’ e os seguidores do ex-presidente Mauricio Macri, representado pelo partido ‘Juntos por el Cambio’. O seu lema é sintomático: “Não vim guiar cordeiros, vim despertar leões.”

A vitória de Milei foi bem recebida pela maioria dos partidos de extrema-direita da Europa. O líder do partido Vox da Espanha, Santiago Abascal, escreveu na rede social ‘X’: “Hoje se abre um caminho de futuro e de esperança para os argentinos e para toda a América Latina, que celebramos na Espanha com especial alegria.”

Também André Ventura, líder do Chega, escreveu que “a luta pela defesa da sociedade está a decorrer em vários territórios e na Argentina a primeira batalha foi vencida!”

O sucesso de Milei parece residir na sua capacidade de canalizar a raiva sentida pelos argentinos contra a classe dominante por entre uma inflação de três dígitos e aumento da pobreza, segundo indicou o site ‘Euronews’. A inflação anual no país é de 140%, enquanto mais de 40% da população luta para ter dinheiro para chegar ao final do mês. “Se tivesse de escolher entre o Estado e a máfia, escolhia a máfia. Porque a máfia tem códigos, a máfia cumpre, a máfia não mente”, referiu, numa entrevista, enquanto defendia a mínima intervenção do Estado na economia.

Antes visto como um espetáculo secundário na política argentina, Milei conseguiu aproveitar seu sucesso como comentador para uma cadeira na Câmara dos Deputados, a câmara baixa do Congresso argentino, em 2021. A partir daí, lançou o que parecia ser uma candidatura presidencial remota, mas abalou o establishment político argentino ao receber o maior número de votos nas primárias do país em agosto.

Previa-se que Milei teria vantagem nas pesquisas de outubro, mas terminou em segundo lugar, com 30% dos votos, quase sete pontos abaixo do ministro da Economia, Sergio Massa.

Conhecido como o ‘Donald Trump da Argentina’, Milei adotou uma mistura de amor pelos ideais do capitalismo com políticas socialmente conservadoras, incluindo uma oposição ao aborto, que a Argentina legalizou em 2020. Por outro lado, é a favor da venda gratuita de armas de fogo e órgãos humanos. “Por que tudo tem de ser regulamentado pelo Estado? A minha primeira propriedade é o meu corpo”, disse.

A introdução do dólar americano e o encerramento do Banco Central são duas das medidas que prometeu, juntamente com a privatização das empresas públicas estatais. O economista e amante dos animais – vive com quatro cães idênticos a ‘Conan’, o cão que morreu em 2018 e que diz ter clonado através de um método experimental. O novo presidente argentino considera-os os “seus filhos” e desenvolveu uma forte ligação com os animais. Javier Milei garante que continua a falar e a estar ligado a Conan através de uma técnica que aprendeu com uma “médium” especializada em “comunicação interespécies” – deixou claro que haverá cortes nas principais questões sociais, como saúde, educação e desenvolvimento social.

Outro ponto que tem gerado debate público é a nova vice-presidente Victoria Villarruel. Filha de militares, é uma advogada que passou grande parte da sua carreira a defender militares responsáveis pelos abusos dos direitos humanos cometidos durante a ditadura de extrema-direita do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, que incluem a tortura e o desaparecimento de milhares de pessoas pelas forças de segurança.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.