Depois de vários dias marcados por chuva intensa e persistente, Portugal prepara-se para uma mudança significativa no estado do tempo. O chamado “rio atmosférico”, fenómeno que tem alimentado um verdadeiro comboio de depressões sobre o país, está perto do fim, abrindo caminho a uma segunda metade de fevereiro muito mais estável e soalheira.
O fenómeno esteve na origem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, responsáveis por um período de precipitação contínua que afetou todo o território continental e provocou a morte de 16 pessoas, além de extensos danos materiais. Ainda assim, os meteorologistas garantem que o padrão atmosférico está prestes a alterar-se.
O que é afinal um “rio atmosférico”?
O climatologista Mário Marques, em declarações à ‘CNN Portugal’, explica que o “rio atmosférico” resulta de um fluxo contínuo de ar subtropical quente e húmido, rico em vapor de água, que é canalizado pela corrente de jato e alimenta sucessivos sistemas depressivos sobre a mesma região.
“Não se trata apenas de chuva intensa, mas de um mecanismo que prolonga o mau tempo durante vários dias”, sublinha. Na prática, traduz-se em períodos de precipitação quase ininterrupta durante pelo menos uma semana, algo visível nas imagens de satélite, onde se observa um corredor de humidade a estender-se desde as Caraíbas, passando pelos Açores, até à Europa Ocidental.
Solo saturado agrava impactos
Mais do que a intensidade isolada da chuva, o principal problema tem sido a saturação extrema dos solos. O comandante Jorge Mendes alerta que, noutras circunstâncias, este fenómeno não seria particularmente alarmante.
“O problema é que temos zonas completamente inundadas e o solo muito saturado”, afirma, acrescentando que os efeitos já se traduziram em movimentos de terras e destruição de infraestruturas. Por isso, sublinha, “o país precisa urgentemente de um período de acalmia”.
As bacias hidrográficas do Tejo, Mondego e Sado continuam sob especial vigilância, com alertas ativos para populações em zonas ribeirinhas, devido ao elevado risco de cheias.
Acalmia começa a meio da semana
A boa notícia é que essa acalmia já tem data marcada. Segundo Mário Marques, o padrão atmosférico deverá manter-se até quarta ou quinta-feira, mas depois ocorrerá uma mudança clara.
“Até meio da semana o tempo mantém-se instável, mas depois o padrão muda completamente”, explica. A partir daí, espera-se uma fase com menos precipitação, alguma humidade e nevoeiros matinais, mas sem novas depressões sucessivas.
Mais importante ainda, o climatologista garante que a segunda metade de fevereiro será bastante diferente da primeira. “Vamos ter um período muito mais calmo e soalheiro. Poderá haver um ou outro dia de chuva, mas nada comparável com o que vivemos até agora.”
País começa a sair do ciclo de tempestades
Desde o início deste período de mau tempo, registaram-se centenas de feridos e desalojados, além de danos em habitações, empresas e equipamentos públicos. Houve estradas cortadas, serviços essenciais interrompidos e queda generalizada de árvores e estruturas.
As regiões mais afetadas foram o Centro, Lisboa e Vale do Tejo e o Alentejo. Face à dimensão dos estragos, o Governo prolongou a situação de calamidade até ao dia 15 em 68 concelhos e anunciou um pacote de apoios que pode chegar aos 2,5 mil milhões de euros.
Com o fim do “rio atmosférico” à vista, Portugal entra agora numa fase de transição: ainda com cautelas necessárias, mas já com perspetiva de tempo mais estável, permitindo finalmente aliviar a pressão sobre o território e iniciar a recuperação após semanas de chuva quase contínua.




