Depois de Maduro, a incerteza: tudo o que pode correr mal na estratégia dos EUA para a Venezuela

Bombardear a Venezuela, derrubar à força o então líder Nicolás Maduro, detê-lo juntamente com a esposa e levá-lo perante a justiça foi, paradoxalmente, a parte mais simples da estratégia delineada por Donald Trump.

Pedro Gonçalves
Janeiro 9, 2026
11:57

Bombardear a Venezuela, derrubar à força o então líder Nicolás Maduro, detê-lo juntamente com a esposa e levá-lo perante a justiça foi, paradoxalmente, a parte mais simples da estratégia delineada por Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos classificou a intervenção como uma “operação cirúrgica”, destinada a fazer com que Maduro respondesse por alegados crimes ligados ao narcotráfico e à posse ilegal de armas.

Concluída com êxito essa fase inicial, a Administração republicana passou a olhar para um objetivo mais ambicioso: permanecer no país até que existam condições para uma “transição adequada”, nos termos definidos por Trump, e relançar o sector petrolífero venezuelano. A meta assumida passa por permitir que “grandes empresas” norte-americanas regressem ao país e comecem a gerar lucros. A grande incógnita reside, porém, na forma como Washington pretende encaixar esta estratégia num chavismo que, apesar do duro golpe sofrido com a saída de Maduro, rapidamente se reorganizou e avançou para uma nova etapa política liderada por figuras centrais do antigo círculo de poder.

Trump deixou já pistas sobre as suas intenções, embora sem um calendário definido. Numa entrevista ao The New York Times, admitiu que os Estados Unidos poderão supervisionar a Venezuela e controlar as suas receitas petrolíferas durante anos. Questionado sobre se esse controlo duraria meses ou um ano, respondeu que seria “muito mais tempo”. “Só o tempo o dirá”, afirmou.

“Vamos reconstruir o país de uma forma muito rentável”, declarou o presidente norte-americano. “Vamos usar o petróleo, vamos ficar com o petróleo. Estamos a baixar os preços e vamos dar dinheiro à Venezuela, que precisa desesperadamente”, acrescentou. O modo como essa promessa será concretizada permanece, contudo, pouco claro.

Estabilização, recuperação e transição: as três fases anunciadas
A estratégia traçada por Washington assenta em três etapas distintas — estabilização, recuperação e transição — que, segundo o próprio Trump, “não seriam fáceis”. O secretário de Estado, Marco Rubio, detalhou estas fases numa intervenção pública, ainda que de forma sucinta e sem apresentar mecanismos concretos para a sua implementação.

A primeira etapa passa pela “estabilização do país”, com o objetivo de impedir que a Venezuela mergulhe “no caos”. Neste contexto, Rubio anunciou a aplicação de uma espécie de “quarentena”, materializada num bloqueio naval que afetará diretamente o petróleo venezuelano, para evitar que este continue a financiar o Executivo chavista. “Estamos prestes a fechar um acordo para tomar todo o petróleo que têm”, afirmou.

Horas antes, Trump tinha revelado que entre 30 e 50 milhões de barris de crude pesado venezuelano seriam transportados em navios-armazém diretamente para portos dos Estados Unidos, onde seriam processados e comercializados.

Se esta fase se consolidar, Washington pretende avançar para a chamada “recuperação”. De acordo com a Administração norte-americana, empresas “dos Estados Unidos, do Ocidente e de outros países” teriam então acesso ao mercado venezuelano “de forma justa”. O petróleo funcionaria como motor da economia e permitiria desencadear um processo de “reconciliação nacional”, incluindo a amnistia de forças da oposição, a libertação de presos políticos e o regresso ao país de opositores exilados, uma das principais exigências da oposição venezuelana.

A terceira fase, designada como “transição”, foi mencionada por Rubio sem qualquer referência a prazos ou a medidas concretas.

Um histórico que alimenta o ceticismo
O plano para a Venezuela surge num contexto marcado por dúvidas e por precedentes pouco animadores. Trump chega à América Latina com um histórico recente de iniciativas diplomáticas que ficaram aquém das expectativas: em Gaza, o processo de paz estagnou após a primeira fase; na Ucrânia, as negociações arrastam-se e apontam para possíveis concessões territoriais. Estes exemplos reforçam o cepticismo em torno da viabilidade da estratégia norte-americana para Caracas, não apenas pela ausência de garantias políticas, mas também pelos problemas que se manifestam desde o início.

A tomada de posse de Delcy Rodríguez como presidente da Venezuela, uma das figuras mais influentes do chavismo, alterou o cenário político sem dissipar as críticas. Muitos dos que celebraram a saída de Maduro defendem agora que Rodríguez representa apenas a continuidade do regime e que, com ela no poder, não existe uma base credível para uma transição democrática.

Para Trump, no entanto, a legitimidade política do processo parece secundária, desde que a nova liderança facilite o acesso dos Estados Unidos ao petróleo venezuelano. Caso contrário, o presidente norte-americano já avisou que poderá ordenar um segundo ataque, fazendo com que Rodríguez pague “um preço muito alto, provavelmente mais alto do que Maduro”.

Ainda assim, o Senado dos Estados Unidos aprovou uma resolução que impede o presidente de lançar novas ações militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso. A votação, de 52 votos contra 47, revelou fissuras na unidade republicana. Para se tornar vinculativa, a resolução teria ainda de ser aprovada pela Câmara dos Representantes — onde os republicanos detêm uma maioria curta — e posteriormente sancionada por Trump, que tudo indica que a vetaria.

“Tudo pode correr mal desde o início”
Para a jornalista venezuelana Ronna Rísquez, autora do livro ‘El Tren de Aragua: La banda que revolucionó el crimen organizado en América Latina’, a escolha de uma figura do chavismo para liderar o país ilustra bem os riscos do plano norte-americano. “Pode correr mal porque, no fundo, o facto de o trumpismo ter permitido que Delcy Rodríguez chegasse à presidência mostra que isto continua no mesmo caminho”, afirma.

Na sua leitura, esta opção representa também um risco para a reputação internacional dos Estados Unidos, ao implicar, na prática, a continuidade de um regime autoritário sob uma nova liderança. Caso o novo governo mantenha uma relação de cooperação com Washington, ficará inevitavelmente associado às decisões norte-americanas.

O ambiente de opacidade e repressão mantém-se. Durante a cerimónia de tomada de posse de Delcy Rodríguez, as forças de segurança venezuelanas detiveram 14 jornalistas, a maioria ligados a meios e agências internacionais. A mudança de figura no poder não pôs fim à censura nem à perseguição de ativistas e órgãos de comunicação social. Persistem, inclusive, dúvidas sobre o destino de militares venezuelanos que poderão ter morrido durante a operação norte-americana, ao contrário do que aconteceu em Cuba, onde o governo divulgou os nomes e fotografias de 32 militares mortos.

Um chavismo em declínio irreversível?
Rísquez considera improvável que o chavismo consiga iniciar uma nova etapa sólida depois de ter assistido, em poucas horas, à captura do seu líder. “Já estava no seu pior momento, praticamente agonizante, e isto só agravou a situação”, explica. “Está como alguém ligado a uma respiração assistida: se a retirarem, acabou. Nunca mais será o que foi. Está fraturado e num caminho de deterioração.”

A jornalista aponta ainda para um factor cultural que terá pesado no declínio do movimento: a percepção de traição que terá facilitado a captura de Maduro. Na cultura venezuelana, sublinha, estas atitudes são vistas como “quase imperdoáveis”. “Ninguém respeita os traidores nem os ‘sapos’ que denunciam os próprios companheiros. Este fantasma de quem traiu Maduro vai gerar uma enorme desconfiança e pode ser o golpe final para o chavismo”, afirma.

Petróleo, investimento e insegurança
No plano económico, multiplicam-se as dúvidas sobre a possibilidade de uma recuperação real liderada pelas mesmas figuras que conduziram o país ao colapso. Empresas energéticas e investidores internacionais continuam a encarar a Venezuela como um território de elevado risco, sobretudo em termos de segurança física.

Clay Seigler, responsável pela cátedra James R. Schlesinger em energia e geopolítica no Center for Strategies and International Studies, sublinha que estas empresas precisam de garantias claras: proteção do pessoal, segurança das comunidades locais, salvaguarda dos ativos e estabilidade jurídica. “Nesta fase tão inicial, simplesmente não há uma resposta clara”, alerta.

A isto soma-se o longo historial de nacionalizações e expropriações. Muitas das empresas potencialmente interessadas regressaram já no passado ao país, apenas para verem os seus ativos “arrebatados” ou compensados de forma insuficiente, sofrendo perdas significativas. A indústria energética internacional conhece bem este cenário e, antes de assumir novos compromissos, procurará reduzir ao máximo os riscos herdados do passado.

Ressuscitar um sector petrolífero “ferido de morte” sem um plano detalhado, para além de um vago “acordo económico”, é, para Rísquez, uma estratégia sem lógica.

Um futuro em aberto e imprevisível
A hipótese de uma revolta popular contra o novo Executivo parece, para já, limitada. Após anos de repressão, a população está desarmada e amedrontada. Ainda assim, não se excluem tentativas de golpes internos no seio do chavismo, num contexto marcado pela suspeita e pela desconfiança.

Analistas como Rajan Menon alertam que, se os protestos degenerarem em confrontos diretos entre a população e o Estado, ou se a agenda intervencionista dos Estados Unidos se prolongar e encontrar resistência popular ou militar, a situação poderá rapidamente sair de controlo.

Rísquez resume o sentimento dominante com pessimismo: “Não vejo com otimismo o que está a acontecer. Gostava que os Estados Unidos tivessem um plano centrado na democracia, mas o que estamos a ver não aponta para isso.” E conclui: “Agora, Washington parece mais interessado no petróleo e nos recursos naturais do que na liberdade dos venezuelanos. A nós, o que nos importa é poder viver no nosso país sem perseguições, detenções arbitrárias, tortura ou mortes.”

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