Portugal entra agora num curto período de acalmia após a passagem da depressão Kristin, mas o Atlântico continua sob vigilância apertada. Os especialistas alertam que o chamado “comboio de depressões” ainda não terminou e que há, pelo menos, “duas carruagens a caminho”, que poderão voltar a trazer vento forte e condições meteorológicas adversas nos próximos dias, sobretudo a partir do fim de semana. A incerteza mantém-se elevada, mas os modelos apontam para a possibilidade de novos episódios de vento intenso, num inverno que tem sido marcado por sucessivas tempestades.
De acordo com informação avançada pelo Diário de Notícias (DN), o climatologista Carlos Câmara sublinha que, apesar de os próximos dias serem tendencialmente mais calmos, “já há duas novas carruagens que estão no Atlântico”, explicando que o impacto em Portugal “não vai ser antes de domingo”, embora exista a possibilidade de novos períodos de vento forte. O especialista avisa que “ainda é cedo para se saber ao certo, mas há que estar atento ao que aí vem”, num contexto em que o país já foi atingido pelas tempestades Ingrid, Joseph e Kristin.
A sucessão de depressões não é inédita e insere-se numa dinâmica atmosférica conhecida. Este inverno tem sido marcado por um desvio para sul da corrente de jato, uma faixa de ventos muito intensos a grande altitude que funciona como “coluna vertebral da atmosfera”, regulando a circulação de sistemas meteorológicos à escala global. Quando esta corrente se desloca para sul, como tem acontecido, favorece o trajeto de depressões intensas pelo Atlântico Norte em direção à Península Ibérica, originando sequências de tempestades umas após as outras.
A depressão Kristin destacou-se como a mais violenta deste conjunto devido a um centro de baixas pressões particularmente profundo e a uma rápida queda da pressão, fenómeno conhecido como ciclogénese explosiva. A situação agravou-se com a formação de um “sting jet”, uma configuração atmosférica que potencia rajadas de vento descendentes muito intensas e destrutivas. No conjunto, Carlos Câmara descreve este cenário como um verdadeiro “cocktail explosivo”, capaz de explicar a severidade dos impactos registados.
Apesar da intensidade dos fenómenos, o climatologista lembra que invernos rigorosos fazem parte da variabilidade climática natural. Ainda assim, sublinha que o aumento dos gases com efeito de estufa, associado à ação humana, altera o balanço energético da atmosfera, tornando mais provável a ocorrência de fenómenos “mais energéticos e, por isso, mais destrutivos”. Com novas depressões já identificadas no Atlântico, o aviso mantém-se: o risco ainda não passou e os próximos dias exigem atenção redobrada.














