Menos de um ano após a queda do Governo de Michel Barnier, a instabilidade política continua a abalar França. O sucessor, François Bayrou, caiu em setembro último, enquanto o atual primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, procura evitar o mesmo destino na Assembleia Nacional.
Dados do inquérito “France Fractures françaises”, realizado pelo Ipsos para o ‘Le Monde’, revelam um declínio generalizado da confiança nas instituições e um crescente descontentamento com o sistema democrático. Oito em cada dez cidadãos afirmam que as suas ideias não estão representadas no panorama político, e 85% consideram necessária a presença de “um verdadeiro líder em França que restaure a ordem”.
O desejo de maior autoridade cresce em quase todos os espectros ideológicos, à exceção do social-democrata. O presidente Emmanuel Macron enfrenta uma forte queda de popularidade, agravada pela suspensão da reforma da segurança social, uma das principais iniciativas do seu segundo mandato. A medida foi adiada para depois das eleições presidenciais de 2027, numa tentativa de preservar a frágil maioria parlamentar de Lecornu, mas poderá criar um rombo anual de 13 mil milhões de euros nas contas públicas.
O primeiro-ministro francês sobreviveu a dois votos de desconfiança graças ao apoio dos socialistas e à suspensão da reforma. Ainda assim, apenas 14% dos franceses aprovam a sua gestão. A sondagem do ‘Le Monde’ mostra que 43% dos cidadãos defendem a dissolução da Assembleia Nacional, um aumento de 12 pontos percentuais face a 2024, com apoio de 64% entre eleitores do Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen.
A erosão da confiança vai além de Macron. Apenas 10% dos inquiridos confiam nos partidos políticos, menos quatro pontos que no ano passado, e a confiança nos parlamentares caiu para 20%. Dois terços da população percebem corrupção generalizada entre funcionários públicos, e quase nove em cada dez acreditam que os políticos agem por interesse próprio. Os únicos bem avaliados são os autarcas, com 68% de confiança.
Apesar de dois terços considerarem o regime “insubstituível”, oito em cada dez julgam que “funciona mal”. Entre os apoiantes de Le Pen, 52% acreditam que outros sistemas políticos poderiam ser igualmente válidos.
As principais preocupações dos cidadãos incluem a perda de poder de compra, apontada por 36%, com mais de metade das famílias a enfrentar dificuldades financeiras. A imigração preocupa 22% dos inquiridos, sendo esta visão mais pronunciada entre apoiantes de Le Pen (95%), conservadores republicanos (86%) e macronistas (57%).
Sobre a redistribuição da riqueza, 61% apoiam o aumento de impostos sobre os mais ricos. Entre eleitores do Rali Nacional, 57% defendem a redistribuição, enquanto 64% são favoráveis à limitação máxima da intervenção estatal na economia.














