Decapitação política: o paralelismo entre Maduro e o plano falhado de Moscovo em 2022

Reação de Moscovo ao ataque dos EUA foi imediata e marcada por forte alarme

Francisco Laranjeira
Janeiro 5, 2026
12:03

A retirada forçada de Nicolás Maduro da Venezuela por forças americanas apresenta uma semelhança central com a estratégia russa falhada em Kiev, em fevereiro de 2022: a tentativa de “decapitação” rápida da liderança adversária para provocar um colapso político e assumir o controlo do país. Ainda assim, a reação de Moscovo ao ataque dos EUA foi imediata e marcada por forte alarme.

Horas depois da operação, realizada na madrugada de sábado, a Rússia declarou-se “extremamente alarmada” com a notícia de que o líder venezuelano e a sua mulher tinham sido retirados do país à força. A posição contrasta com o próprio historial recente do Kremlin, que tentou aplicar uma lógica semelhante no início da invasão em grande escala da Ucrânia.

A ofensiva russa lançada em fevereiro de 2022 foi concebida como um ataque-relâmpago contra a capital ucraniana. O objetivo passava pela infiltração em centros de poder, pela captura ou eliminação do presidente Volodymyr Zelensky e pela instalação de um Governo submisso ou pela rendição rápida do Estado ucraniano.

Investigações jornalísticas e relatos de autoridades de Kiev apontaram, desde os primeiros dias da invasão, para a presença de equipas mercenárias com missões dirigidas contra o presidente e membros do Governo. Meios internacionais noticiaram, ainda em fevereiro desse ano, a existência de ordens para assassinar Zelensky, tendo continuado a surgir, nos anos seguintes, planos atribuídos a redes ligadas a Moscovo ou aos serviços de segurança russos.

Apesar dessa estratégia inicial, o aparelho militar e estatal ucraniano não colapsou, frustrando os planos do Kremlin para uma vitória rápida.

Condenação russa e apelos à soberania

Após a operação dos EUA na Venezuela, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo classificou a ação como uma violação grave da soberania de um Estado independente e apelou à libertação imediata de Nicolás Maduro. Em paralelo, o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, falou por telefone com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, expressando “solidariedade com o povo venezuelano face à agressão armada”.

A partir da Duma, o parlamento russo, foi ainda defendida a convocação urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para analisar o sucedido na Venezuela. O Kremlin apelou ao diálogo e advertiu contra uma nova escalada, defendendo que Caracas deve poder determinar o seu futuro sem “interferências militares externas”.

Estas posições surgem num contexto em que a própria Rússia continua a ser alvo de condenação internacional pela violação da soberania da Ucrânia, após quatro anos de bombardeamentos e operações militares em território ucraniano.

Impacto financeiro e geopolítico para Moscovo

A eventual queda definitiva de Maduro representa um problema concreto para Moscovo. A Venezuela mantém dívidas bilaterais significativas com a Rússia, incluindo compromissos associados a compras de material militar, cujos calendários de pagamento já eram apertados antes da mudança de poder. Um novo regime poderá congelar pagamentos, rever contratos e concessões energéticas, deixando Moscovo com prejuízos financeiros relevantes.

Há também um custo geopolítico. Caracas funcionava como uma montra da chamada “aliança anti-EUA” no hemisfério ocidental e como um ponto de influência russa junto das fronteiras de Washington. Uma reorientação política da Venezuela significaria a perda de um aliado simbólico e de um canal estratégico na região.

O paralelo com a Síria é inevitável. Tal como aconteceu com a queda de Bashar al-Assad, a perda de Maduro fragiliza a imagem da Rússia como garante fiável de regimes aliados, atingindo a sua credibilidade internacional.

Reações incómodas na propaganda russa

No ecossistema dos bloggers militares russos, conhecidos como “canais Z”, a reação dominante à captura de Maduro tem sido ambígua. Mistura indignação política com admiração técnica pela operação americana, descrita como “rápida” e “limpa”, em contraste com o início falhado da ofensiva russa em 2022.

Canais influentes sublinharam a ausência de resistência na Venezuela e apontaram para sinais de paralisia ou traição interna, argumentos frequentemente usados para justificar falhanços militares russos. Neste ambiente, tornou-se viral uma mensagem de Margarita Simonyan, diretora da RT, que evocou ironicamente Lavrentiy Beria, figura central do aparelho repressivo estalinista, numa expressão de inveja pela capacidade dos EUA em capturar um líder inimigo onde Moscovo falhou.

Às vésperas do quarto ano da invasão da Ucrânia, esta admiração pública por uma ação militar americana é particularmente desconfortável para o Kremlin. O contraste entre a condenação russa da “mudança de regime” na Venezuela e a sua própria atuação no espaço pós-soviético expõe uma contradição difícil de ocultar.

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