Dez anos após assumir a Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa está prestes a abandonar o Palácio de Belém após deixar uma marca singular no cargo: um estilo de proximidade constante e comunicação intensa que conquistou elevados níveis de popularidade, mas que revelou sinais de desgaste no segundo mandato.
Hiperativo, interventivo e frequentemente fora de protocolos, Marcelo consolidou uma Presidência marcada por afetos e notoriedade junto da sociedade civil, mas também por crises e polémicas políticas.
Durante a sua década em Belém, Marcelo trabalhou apenas com dois primeiros-ministros, António Costa e Luís Montenegro, assistindo a quatro eleições legislativas, três delas durante o segundo mandato. A dissolução da Assembleia da República tornou-se uma ferramenta frequente do seu presidencialismo, utilizada em resposta a bloqueios políticos ou investigações judiciais. Para apoiantes, reforçou a estabilidade institucional; para críticos, aumentou a perceção de instabilidade.
O primeiro mandato destacou-se pela acumulação de capital político e popularidade. O período da pandemia de Covid-19 funcionou como ponto alto, com o Presidente próximo dos cidadãos, emocionalmente presente e mediaticamente visível. A reeleição em 2021, com cerca de 60% dos votos, reforçou a sua legitimidade eleitoral, alimentando expectativas de continuidade de um Presidente agregador e interventivo.
Marcelo tornou-se conhecido pelas chamadas “marselfies”, aproximando-se das multidões e quebrando protocolos, e pela presença mediática constante que lhe conferiu uma relação sem paralelo com o eleitorado. Para o politólogo João Pacheco, “o primeiro mandato foi de afetos e simpatia; o segundo foi claramente de desgaste”, marcado por dissoluções parlamentares sucessivas, crises políticas, polémicas comunicacionais e casos que afetaram a esfera pessoal do Presidente, como o caso das gémeas e o medicamento Zolgensma, envolvendo o filho de Marcelo.
A relação com os primeiros-ministros também refletiu estas diferenças. Com António Costa, a coabitação foi simbiótica, permitindo atravessar momentos críticos com estabilidade, incluindo incêndios em 2017 e a pandemia. Já com Luís Montenegro, o relacionamento revelou-se mais institucional, distante e marcado por falta de coordenação, refletindo a evolução da dinâmica política em Portugal.
O segundo mandato acentuou um traço antigo de Marcelo: a necessidade de comentar praticamente todos os acontecimentos, tornando o Presidente mais crítico, interventivo e menos contido. Declarações sobre abusos na Igreja ou sobre o passado colonial geraram polémica e expuseram a dificuldade de manter o equilíbrio entre presença mediática e prudência política.
Marcelo também se destacou pela intensa atividade internacional, com cerca de 170 deslocações a aproximadamente 60 países, superando largamente os registos de antecessores e consolidando a sua imagem de Presidente presente e visível, tanto em visitas de Estado como em eventos multilaterais e jogos da seleção nacional.
No plano interno, o segundo mandato ficou marcado pela instabilidade política, com dissoluções parlamentares em 2021, 2024 e 2025, envolvendo governos minoritários, moções de confiança e investigações judiciais que afetaram o desempenho do executivo. Para o politólogo João Pacheco, a intervenção presidencial nestes momentos visou reforçar a legitimidade democrática, mesmo à custa da perceção de instabilidade.
O legado de Marcelo Rebelo de Sousa é, assim, complexo e multifacetado: uma Presidência de proximidade e empatia que uniu o país em vários momentos, mas que também expôs o Presidente a desgaste, polémicas e críticas. A memória pública poderá privilegiar episódios controversos, como o caso das gémeas, mas o impacto das suas decisões durante a pandemia e na estabilidade institucional marcará para sempre a história de Belém. Mesmo após deixar o cargo, espera-se que Marcelo continue a intervir no espaço público com o mesmo estilo opinativo e próximo dos cidadãos.














