Concebida para redefinir o conceito da pick-up americana, a Tesla Cybertruck tornou-se, seis anos após a sua apresentação, um dos maiores fracassos comerciais da história recente da indústria automóvel nos Estados Unidos. Ainda assim, o modelo mais controverso da marca de Elon Musk poderá encontrar um inesperado caminho de redenção fora do seu mercado de origem, nomeadamente no Médio Oriente, onde começa a afirmar-se como objeto de estatuto e ostentação, segundo o ‘L’Automobile Magazine’.
O contraste entre o colapso das vendas nos EUA e o entusiasmo gerado noutros mercados expõe as limitações técnicas, culturais e regulatórias de um projeto que prometia uma revolução industrial, mas acabou por chocar com a realidade do mercado.
Um lançamento americano que falhou as expectativas
Quando a Tesla revelou a Cybertruck em 2019, Elon Musk apontava para um objetivo ambicioso de 500 mil unidades vendidas por ano. O contexto parecia favorável: as pick-ups dominam historicamente o mercado automóvel americano. No entanto, após sucessivos atrasos na produção, o desempenho comercial ficou muito aquém do prometido.
Em 2025, a Tesla entregou apenas 20.237 unidades da Cybertruck nos Estados Unidos, uma queda de 48,1% face às 38.965 registadas em 2024. O último trimestre do ano agravou ainda mais o cenário, com apenas 4.140 unidades vendidas, menos 68,1% do que no período homólogo. De acordo com o ‘L’Automobile Magazine’, estes números colocam a Cybertruck no centro das críticas e fazem dela um símbolo de fracasso industrial.
O mau desempenho não se explica apenas pelo preço ou pela concorrência. O design radical, a ergonomia contestada, a qualidade de acabamento e, sobretudo, a diferença entre o preço anunciado em 2019, de cerca de 36.800 euros, e os valores efetivamente praticados minaram a credibilidade do projeto junto do público americano.
Médio Oriente surge como palco inesperado
Perante a estagnação no mercado doméstico, a Tesla optou por mudar de estratégia. Em janeiro de 2026, a Cybertruck iniciou a sua expansão internacional com um lançamento cuidadosamente encenado no Médio Oriente, começando pelos Emirados Árabes Unidos.
Num evento realizado no deserto de Al Marmoom, perto do Dubai, cerca de 60 Cybertrucks foram entregues aos primeiros proprietários. A encenação, com dezenas de veículos alinhados na areia e ampla divulgação nas redes sociais, encontrou um enquadramento cultural favorável. Nos Emirados, a eletrificação não é vista como uma necessidade ambiental, mas como um símbolo de modernidade e estatuto social. Num país onde o combustível é barato e o automóvel assume um papel identitário, a Cybertruck destaca-se precisamente pelo excesso, pela raridade e pela ostentação tecnológica.
Preços elevados reforçam a exclusividade
Nos Emirados Árabes Unidos, a Tesla posiciona claramente a Cybertruck como um produto premium. A versão de dois motores custa cerca de 100 mil euros, enquanto a Cyberbeast, equipada com três motores, ultrapassa os 110 mil euros. Estes valores são substancialmente superiores aos praticados nos Estados Unidos, mas, no contexto do Golfo Pérsico, o preço elevado não afasta compradores. Pelo contrário, reforça a perceção de exclusividade do modelo.
A estratégia da Tesla estende-se também a outros mercados da região, como a Arábia Saudita, o Catar, a Jordânia e Israel, países caracterizados por regulamentações automóveis mais flexíveis e uma preferência assumida por veículos grandes e imponentes.
Europa continua fora do horizonte
Apesar desta aposta internacional, a Europa permanece excluída dos planos imediatos da Tesla para a Cybertruck. A principal razão é regulatória. A estrutura ultrarrígida em aço inoxidável, elemento distintivo do modelo, entra em conflito direto com as normas europeias de proteção de peões, que exigem zonas de deformação programada capazes de absorver a energia de um impacto.
A isto soma-se a questão do peso, que pode ultrapassar as 3,5 toneladas consoante a configuração, levantando problemas adicionais ao nível da homologação e das cartas de condução. O paradoxo torna-se evidente se se considerar que a Cybertruck recebeu, em dezembro de 2025, o prémio Top Safety Pick+ do IIHS norte-americano, centrado sobretudo na proteção dos ocupantes e não dos utilizadores vulneráveis da via pública.
Um sucesso relativo num mercado de nicho
Apesar do entusiasmo gerado no Médio Oriente, o L’Automobile Magazine sublinha que estes mercados continuam a ser de nicho e dificilmente conseguirão compensar o colapso das vendas na América do Norte. Mesmo com uma procura local sólida, a Tesla permanece muito distante das ambições iniciais traçadas para a Cybertruck.
Assim, o modelo que nasceu como símbolo de uma revolução prometida poderá sobreviver não como um sucesso de massas, mas como um objeto de luxo exótico, valorizado precisamente onde a eletrificação é menos necessária e a extravagância mais apreciada.














