Os europeus gastam, em média, 20% do seu rendimento disponível em despesas relacionadas com habitação, incluindo rendas, prestações de empréstimos, contas de água, eletricidade e gás. No entanto, esta percentagem varia consideravelmente entre os países da União Europeia (UE), com a Grécia a destacar-se como o país onde os custos habitacionais representam a maior fatia do rendimento das famílias.
Dados recentes do Eurostat mostram que, em 2023, os cidadãos da UE destinaram, em média, 19,7% do seu rendimento disponível para despesas com habitação. No entanto, as diferenças entre os Estados-membros são significativas, com a percentagem a oscilar entre 11,6% no Chipre e 35,2% na Grécia.
O que está incluído nos custos habitacionais?
De acordo com o Eurostat, os custos de habitação englobam todas as despesas mensais associadas à ocupação de um imóvel. Para os proprietários, isto inclui juros de empréstimos hipotecários, seguros estruturais e impostos sobre a propriedade. Para os inquilinos, inclui rendas e eventuais taxas obrigatórias. Além disso, independentemente da posse do imóvel, são contabilizadas as despesas com serviços públicos essenciais, como água, eletricidade, gás e aquecimento, bem como manutenção e reparações regulares.
O rendimento disponível considerado neste estudo inclui todos os rendimentos provenientes do trabalho (salários e rendimentos de trabalho independente), rendimentos privados de investimentos e propriedades, transferências entre agregados familiares e prestações sociais em dinheiro, como pensões de velhice.
Grécia lidera lista dos países com maior esforço financeiro em habitação
A Grécia apresenta um caso extremo no contexto europeu, com as famílias gregas a gastarem, em média, 35,2% do seu rendimento disponível em custos habitacionais. O segundo país da lista, a Dinamarca, regista um valor significativamente inferior, de 25,9%, seguido da Alemanha, com 25,2%.
Segundo Ilias Nikolaidis, diretor de conteúdos da organização grega diaNEOsis, a crise económica da última década foi determinante para esta realidade. “As famílias gregas perderam cerca de 40% do seu rendimento entre 2009 e 2014, e a recente onda de inflação agravou ainda mais a situação”, explicou à agência DPA.
Também o mercado imobiliário grego sofreu transformações que impulsionaram o aumento dos preços das casas. “A crise manteve os preços dos imóveis baixos, o que atraiu investidores estrangeiros. A isto juntou-se o crescimento das plataformas de alojamento de curta duração, o programa de vistos dourados e a explosão do turismo”, acrescentou Nikolaidis. Paralelamente, a construção civil desacelerou, reduzindo a oferta de novas habitações, o que também contribuiu para a subida dos preços.
Alemanha lidera entre as maiores economias da UE
Entre as quatro maiores economias da UE, a Alemanha tem os custos habitacionais mais elevados, representando 25,2% do rendimento disponível das famílias. Segue-se a França (17,9%), Espanha (17,2%) e Itália (14,5%).
Nos países nórdicos, Dinamarca, Noruega e Suécia encontram-se entre os seis países com os maiores encargos habitacionais, todos acima de 23,9%. Já a Finlândia registou um valor ligeiramente abaixo da média da UE, fixando-se nos 19,3%.
Em contraste, os países com menor peso dos custos de habitação no rendimento disponível foram o Chipre (11,6%), Malta (12%), Eslovénia (13,8%), Portugal (14%), Croácia (14,4%) e Itália (14,5%).
Os dados do Eurostat revelam ainda que os agregados familiares com rendimentos abaixo de 60% da mediana nacional – considerados em risco de pobreza – enfrentam encargos habitacionais significativamente superiores. Em média, estes lares destinam 38,2% do seu rendimento disponível para despesas com habitação, valor que sobe para 62,4% na Grécia, o mais alto da UE.
Na Grécia, cerca de 2,7 milhões de pessoas, o equivalente a 26,4% da população, estavam em risco de pobreza ou exclusão social. O mesmo padrão repete-se em vários países europeus, com Dinamarca (57%), Noruega (48,5%), Suécia (48,1%), Chéquia (46,1%), Alemanha (45,8%), Países Baixos (45,7%) e Suíça (45,5%) a apresentarem percentagens elevadas de rendimento destinado à habitação por parte das famílias mais vulneráveis.
Já para os agregados familiares com rendimentos superiores a 60% da mediana nacional, os custos habitacionais representavam, em média, 16,2% do rendimento disponível.
Tendência de aumento dos custos habitacionais na Europa
Os dados do Eurostat permitem observar a evolução dos custos habitacionais desde 2020. Apesar do aumento ser gradual, verifica-se uma tendência de subida. Entre 2020 e 2023, o custo médio da habitação na UE subiu 1,2 pontos percentuais (pp).
Este aumento foi particularmente acentuado em sete países, onde o peso das despesas habitacionais no rendimento disponível cresceu 3 pp ou mais: Hungria (5,7 pp), Noruega (5 pp), Estónia (4 pp), Luxemburgo (3,8 pp), Alemanha (3,7 pp), Turquia e Malta (3 pp).
Por outro lado, apenas três países registaram uma redução significativa nos encargos habitacionais, com a Bulgária a destacar-se com uma descida de 2 pp.
Segundo Dara Turnbull, coordenador de investigação da Housing Europe, a forma como a acessibilidade da habitação é atualmente medida pode não refletir totalmente a realidade. “As métricas usadas para avaliar os custos habitacionais enquanto percentagem do rendimento disponível não são completamente adequadas e não nos permitem compreender a gravidade da situação”, explicou.
Com o custo da habitação a aumentar na maioria dos países europeus, o debate sobre a acessibilidade e sustentabilidade do setor imobiliário torna-se cada vez mais urgente.




