Crise em França: Lecornu sobrevive a duas moções de censura após suspender reforma das pensões

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, sobreviveu esta terça-feira a duas moções de censura apresentadas no Parlamento pela extrema-esquerda e pela extrema-direita, depois de decidir adiar a reforma das pensões — uma das medidas mais simbólicas do legado de Emmanuel Macron — para depois das eleições presidenciais de 2027.

Pedro Gonçalves
Outubro 16, 2025
11:24

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, sobreviveu esta terça-feira a duas moções de censura apresentadas no Parlamento pela extrema-esquerda e pela extrema-direita, depois de decidir adiar a reforma das pensões — uma das medidas mais simbólicas do legado de Emmanuel Macron — para depois das eleições presidenciais de 2027.

A primeira moção, apresentada pela coligação da esquerda Nova Frente Popular, foi chumbada com 271 votos a favor, abaixo dos 289 necessários para derrubar o Governo. Pouco depois, a moção apresentada pela União Nacional, de Marine Le Pen, obteve apenas 144 votos favoráveis, confirmando a manutenção do executivo no poder.

Com este resultado, Lecornu, nomeado há poucos meses para chefiar o sexto Governo de Macron em menos de dois anos, consegue um fôlego político temporário, num contexto de forte instabilidade e fragmentação parlamentar.

Reforma das pensões suspensa até depois de 2027
A decisão de suspender a aplicação da reforma das pensões de 2023, aprovada entre grandes protestos populares, foi vista como um gesto de concessão à esquerda parlamentar, que condicionou o seu apoio à sobrevivência do Governo a esse recuo.

Durante o debate, Lecornu anunciou que a discussão sobre a reforma seria adiada até depois das presidenciais de 2027, sublinhando que “a França precisa de estabilidade e diálogo, não de confrontação permanente”. A medida foi interpretada como uma tentativa de reduzir as tensões sociais e políticas que marcaram o mandato de Macron desde a polémica alteração da idade de reforma para os 64 anos.

Macron perde um dos seus principais legados económicos
O adiamento da reforma das pensões representa um revés significativo para Emmanuel Macron, cujo programa político sempre se apoiou em reformas estruturais e liberais do sistema económico francês. Esta suspensão põe em causa um dos pilares do seu legado, num momento em que o país enfrenta défices orçamentais elevados e um crescimento económico frágil.

De acordo com analistas políticos citados pela imprensa francesa, a decisão “reflete o reconhecimento, por parte do presidente, de que recuar neste dossiê era a única forma de garantir a sobrevivência política de Lecornu e evitar uma nova crise de governo”.

O primeiro-ministro, que já enfrentou uma sucessão de desafios desde a sua nomeação, tinha nas mãos um teste decisivo à sua legitimidade parlamentar. Ao recuar, conseguiu consolidar o apoio do Partido Socialista e neutralizar temporariamente as forças de oposição mais radicais.

Republicanos apelam ao consenso orçamental
Após a votação, o tom político suavizou-se ligeiramente na Assembleia Nacional. Laurent Wauquiez, líder dos Republicanos, partido da direita tradicional, defendeu uma abordagem pragmática e apelou à cooperação institucional. “É necessário dar um orçamento à França”, afirmou, sublinhando que “adiar a aprovação da lei agravaria ainda mais o défice do país”.

A intervenção de Wauquiez foi interpretada como um sinal de abertura para negociações orçamentais, evitando o risco de dissolução parlamentar ou novas eleições antecipadas — um cenário que paira sobre o Palácio do Eliseu desde a perda da maioria absoluta de Macron em 2022.

Sébastien Lecornu, de 39 anos, é o sexto primeiro-ministro francês desde 2023, o que mostra a instabilidade política que tem marcado o segundo mandato de Macron. A sobrevivência a duas moções consecutivas dá-lhe margem para governar a curto prazo, mas o futuro do executivo permanece incerto, sobretudo perante a proximidade do debate orçamental e a pressão social crescente.

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