‘Corrida aos chips’: guerra com a China mergulha setor automóvel da Europa no caos tecnológico

Nexperia, empresa sediada nos Países Baixos mas controlada pela chinesa Wingtech, enfrenta agora restrições simultâneas impostas por Haia, Washington e Pequim

Automonitor
Outubro 24, 2025
13:43

A guerra geopolítica que envolve a fabricante de chips Nexperia está a alarmar a indústria automóvel europeia. A empresa, sediada nos Países Baixos mas controlada pela chinesa Wingtech, enfrenta agora restrições simultâneas impostas por Haia, Washington e Pequim — um cenário que ameaça provocar uma nova crise de semicondutores no setor automóvel.

De acordo com o jornal ‘POLITICO’, o fornecimento de chips essenciais da Nexperia começou a cair semanas depois de o Governo neerlandês assumir o controlo da empresa. Paralelamente, os Estados Unidos ampliaram os controlos de exportação sobre a Wingtech e a China retaliou, proibindo a exportação de componentes produzidos pela subsidiária chinesa da Nexperia.

Fontes do setor automóvel alertam para a possibilidade de paragens e desacelerações na produção mundial já nas próximas semanas, devido à escassez de chips. Um responsável ouvido pela publicação afirmou que “muitos fornecedores não têm stock suficiente” e que “o setor automóvel está no centro da tempestade”.

Os semicondutores da Nexperia são utilizados em praticamente toda a cadeia automóvel — desde airbags a sistemas de entretenimento — e são considerados indispensáveis. Um automóvel convencional contém até 500 chips da empresa, enquanto um veículo elétrico pode incorporar até 1.000.

Crise repete cenário da pandemia

O alerta surgiu no passado dia 9, quando a Nexperia declarou força maior, referindo-se a um “desenvolvimento imprevisto que pode afetar a disponibilidade de certos produtos”. Segundo o ‘POLITICO’, o aviso levou as marcas automóveis a correrem para adquirir os chips restantes, comparando a reação com “a corrida ao papel higiénico durante a pandemia”.

A situação faz recordar 2022, quando a escassez global de microchips paralisou fábricas de automóveis em todo o mundo. Apesar disso, pouco foi feito para reforçar as cadeias de abastecimento europeias. A Lei dos Chips, lançada pela União Europeia após aquela crise, pretendia reduzir a dependência externa, mas os resultados continuam distantes das metas estabelecidas.

Disputa política intensifica tensões

O Governo neerlandês justificou a intervenção na Nexperia com receios de transferência de tecnologia para fora do país. A decisão foi tomada um dia depois de os EUA estenderem as restrições à Wingtech e quatro dias antes de a China impor controlos de exportação aos chips fabricados pela Nexperia.

Bruxelas colocou o tema no topo da agenda. “A questão dos chips é crucial para muitos aspetos da nossa política, principalmente a transição energética”, afirmou Paula Pinho, porta-voz da Comissão Europeia. O comissário da Indústria, Stéphane Séjourné, discutiu o caso com líderes empresariais e o vice-presidente da Comissão, Maros Sefcovic, abordou o tema numa conversa com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao.

Marcas automóveis em alerta e resposta europeia

A Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (ACEA) manifestou “profunda preocupação com a potencial interrupção significativa” na produção e apelou a uma solução rápida. A Volkswagen também alertou os trabalhadores para possíveis paralisações. Embora a Nexperia não seja fornecedora direta do grupo, vários componentes usados nos seus veículos dependem dos chips da empresa.

A Comissão Europeia, indicou a publicação, planeia apresentar uma nova “Lei dos Chips 2.0” no primeiro trimestre do próximo ano. O objetivo é acelerar a independência tecnológica da Europa e duplicar a sua participação na produção mundial de semicondutores até 2030.

No entanto, analistas alertam que o tempo é curto. Como observou Herman Quarles van Ufford, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, “o caso Nexperia mostra que a Europa ainda não aprendeu a lição de 2022”.

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