Corrente oceânica mais poderosa do planeta está a abrandar: sistema essencial flui agora três vezes mais devagar do que há 130 mil anos

A Corrente Circumpolar Antártica (CCA), o maior e mais poderoso sistema de circulação oceânica do planeta, está a perder força de forma alarmante.

Pedro Gonçalves
Outubro 11, 2025
18:30

A Corrente Circumpolar Antártica (CCA), o maior e mais poderoso sistema de circulação oceânica do planeta, está a perder força de forma alarmante. De acordo com um estudo da Universidade de Bona, na Alemanha, esta corrente flui atualmente três vezes mais devagar do que há 130 mil anos — um abrandamento que pode ter efeitos desastrosos no equilíbrio climático da Terra.

A CCA é cinco vezes mais intensa do que a Corrente do Golfo e transporta 100 vezes mais água do que o rio Amazonas, movimentando cerca de 173 milhões de metros cúbicos por segundo num círculo contínuo em torno da Antártida. Esta corrente é crucial para regular as temperaturas globais, distribuir nutrientes marinhos e absorver dióxido de carbono, funcionando como um dos principais mecanismos de estabilização climática do planeta.

A investigação, publicada após a análise de amostras de sedimentos recolhidas no mar de Scotia, a norte da Antártida, permitiu reconstruir a evolução da corrente ao longo dos últimos 160 mil anos. Segundo o coordenador do estudo, Michael Weber, da Universidade de Bona, “a velocidade durante o penúltimo período quente, há cerca de 130 mil anos, era mais de três vezes superior à verificada nos últimos milénios, que correspondem ao atual período interglacial”.

As amostras foram recolhidas pela embarcação científica Joides Resolution e analisadas para identificar variações na posição e velocidade da corrente ao longo do tempo. Os investigadores concluíram que o abrandamento atual coincide com mudanças no movimento orbital da Terra em torno do Sol, que influenciam a intensidade da radiação solar e, por consequência, a força dos ventos que impulsionam correntes como a CCA.

De acordo com Weber, durante o último período quente, esses fatores “atingiram máximos simultâneos e reforçaram-se mutuamente”, deslocando a corrente cerca de 600 quilómetros mais próxima do polo sul do que se encontra atualmente.

O papel humano no agravamento do fenómeno
Embora as causas naturais expliquem parte do fenómeno, a influência humana está a intensificar o abrandamento, alertam os cientistas. Um estudo recente da Universidade de Melbourne, realizado com recurso ao supercomputador mais rápido da Austrália, simulou a evolução da corrente sob o efeito das alterações climáticas.

Os resultados mostram que, até 2050, a Corrente Circumpolar Antártica poderá abrandar mais 20% devido ao impacto das emissões de gases com efeito de estufa e ao degelo acelerado das plataformas de gelo da Antártida.

O Dr. Bishakhdatta Gayen, professor associado na Universidade de Melbourne, que não participou no estudo alemão, sublinhou a gravidade do cenário: “Se este ‘motor’ oceânico entrar em colapso, as consequências poderão ser severas — desde uma maior variabilidade climática e fenómenos meteorológicos extremos até ao agravamento do aquecimento global, devido à redução da capacidade dos oceanos de atuarem como sumidouro de carbono.”

Corrente mais lenta ameaça equilíbrio climático e ecológico
Contrariando previsões anteriores de que o aquecimento global poderia acelerar as correntes oceânicas, os modelos mais recentes indicam o contrário. À medida que o gelo derrete, enormes volumes de água fria e doce são libertados nos oceanos, tornando a água menos densa e enfraquecendo a circulação oceânica profunda.

Este processo reduz a velocidade da CCA e, em consequência, diminui a capacidade dos oceanos de redistribuir calor e nutrientes. A corrente também atua como uma barreira natural, impedindo que águas quentes e espécies invasoras, como a alga gigante do sul (Southern Bull Kelp), atinjam a região antártica.

Se essa barreira enfraquecer, as águas mais quentes poderão atingir o gelo marinho da Antártida, acelerando ainda mais o derretimento e agravando o ciclo de abrandamento. “É um efeito dominó climático”, alertam os investigadores, que avisam que o impacto poderá estender-se a todo o planeta.

Consequências globais potencialmente catastróficas
A placa de gelo antártica concentra cerca de 90% da água doce do planeta. Qualquer aceleração significativa do seu derretimento poderia traduzir-se num aumento substancial do nível médio do mar, ameaçando as 230 milhões de pessoas que vivem a menos de um metro do nível das marés altas.

Embora os cientistas descartem um desaparecimento total do gelo antártico a curto prazo, sublinham que mesmo pequenas variações na velocidade da corrente podem ter efeitos duradouros sobre o clima, a pesca e os ecossistemas marinhos.

“Estamos a falar de uma das engrenagens fundamentais do sistema climático global”, resumiu Michael Weber. “Se a Corrente Circumpolar Antártica continuar a abrandar, estaremos a assistir a uma mudança estrutural no modo como o planeta regula o seu próprio equilíbrio térmico.”

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