O chamado Conselho de Paz, criado pelo presidente americano Donald Trump como alternativa às Nações Unidas, voltou a ser alvo de críticas e chacota internacional depois de se saber que quase metade dos países que o integram está sujeita a restrições de entrada nos Estados Unidos, ao abrigo da mais recente proibição de viagens imposta pela própria administração americana.
De acordo com o ‘The Independent’, a contradição tornou-se evidente poucos dias depois de Trump ter apresentado o novo organismo com grande encenação no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, onde afirmou ser “amigo” dos representantes dos países convidados a subir ao palco.
Entre os Estados representados na cerimónia estiveram Argentina, Arménia, Azerbaijão, Bahrain, Bulgária, Hungria, Indonésia, Jordânia, Kosovo, Mongólia, Marrocos, Paquistão, Paraguai, Qatar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Usbequistão. A ausência de países europeus foi notória, num contexto em que surgiram também relatos de que o presidente russo, Vladimir Putin, teria sido convidado a participar.
No entanto, no início deste ano, a administração Trump reforçou significativamente as restrições migratórias, suspendendo por tempo indeterminado o processamento de vistos de imigração para cidadãos de 75 países. Entre eles encontram-se vários Estados que integram agora o Conselho da Paz, o que levanta dúvidas sobre a coerência e a viabilidade política da iniciativa.
Segundo o ‘The Independent’, pelo menos 18 países estiveram representados na cerimónia de lançamento do conselho, mas Arménia, Azerbaijão, Jordânia, Kosovo, Mongólia, Marrocos, Paquistão e Usbequistão estão atualmente sujeitos às restrições de vistos impostas por Washington. Ainda assim, Trump descreveu o novo órgão como tendo “potencial para ser um dos mais importantes alguma vez criados”.
O Conselho de Paz surgiu na sequência do envolvimento direto de Trump no acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas mediado pelos Estados Unidos. Espera-se que os países membros contribuam com mil milhões de dólares para integrar a iniciativa.
Na inauguração do conselho, o genro do presidente, Jared Kushner, apresentou uma visão altamente polémica para uma “Nova Gaza”, com imagens geradas por computador que incluem centros de dados, arranha-céus residenciais de luxo, turismo costeiro e mais de 100 mil novas habitações, além de 75 instalações médicas.
As imagens recordam um vídeo criado por inteligência artificial, divulgado no ano passado, que mostrava a Faixa de Gaza transformada numa espécie de “riviera” mediterrânica, com referências visuais a Trump e ao empresário Elon Musk. A apresentação voltou a alimentar críticas sobre a desconexão entre os planos anunciados e a realidade no terreno.
Trump anunciou ainda a nomeação do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair como membro do Conselho de Paz, uma escolha que gerou controvérsia, sublinhando que o próprio presidente americano assumirá a liderança do organismo.
“Quando os Estados Unidos prosperam, o mundo inteiro prospera”, afirmou Trump em Davos, defendendo que o conselho poderá desempenhar um papel central na ordem internacional. O presidente garantiu também que o organismo será responsável pela desmilitarização de Gaza, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, o classificou como um “conselho de ação”.
Apesar das declarações ambiciosas, as incongruências entre a composição do conselho e a política externa norte-americana continuam a alimentar o ceticismo internacional quanto ao alcance real da iniciativa.






