Conheça a nação nativa da internet que está a tentar comprar a Gronelândia para estabelecer um “criptoestado”

Presidente dos Estados Unidos tem manifestado interesse em adquirir a ilha do Ártico, alegando razões de segurança nacional, face à presença crescente da China e da Rússia, e ao vasto potencial de recursos naturais. Há, contudo, um terceiro fator frequentemente apontado por analistas

Francisco Laranjeira
Fevereiro 2, 2026
12:10

Em outubro de 2024, uma empresa com sede em Nova Iorque anunciou ter assegurado um financiamento de cerca de 483 milhões de euros para um projeto denominado “Network Nation”. A empresa chama-se Praxis e apresenta-se como a primeira “nação conectada” do mundo.

Um mês depois, o fundador viajou para a Gronelândia, uma deslocação que levantou dúvidas e curiosidade. A explicação surge num cruzamento entre ambições tecnológicas, criptomoedas e a estratégia geopolítica defendida por Donald Trump, segundo o ’20 Minutos’.

O presidente dos Estados Unidos tem manifestado interesse em adquirir a ilha do Ártico, alegando razões de segurança nacional, face à presença crescente da China e da Rússia, e ao vasto potencial de recursos naturais, como níquel, platina, tungsténio, titânio, cobre, urânio e terras raras. Há, contudo, um terceiro fator frequentemente apontado por analistas: o interesse estratégico da Gronelândia para projetos ligados às criptomoedas, devido à perspetiva de energia abundante e relativamente barata para a mineração de bitcoin.

Um “criptoestado” no gelo do Ártico

É neste contexto que surge a Praxis Nation. O projeto propõe a criação de uma comunidade autónoma experimental, assente em ideais libertários e em tecnologias como criptomoedas e inteligência artificial, utilizando a Gronelândia como base física. A empresa descreve-se como uma “nação nativa da internet” e uma cidade-estado teórica destinada a “restaurar a civilização ocidental”.

Fundada por Dryden Brown e Charlie Callinan, a Praxis tinha inicialmente planos para criar uma cidade com 10 mil habitantes na região do Mediterrâneo. No entanto, em novembro de 2024, Brown deslocou-se à Gronelândia, onde se reuniu com responsáveis políticos locais. Dias depois da reeleição de Trump, escreveu nas redes sociais que tinha ido à ilha “para tentar comprá-la”.

Segundo dados divulgados pela própria empresa, a Praxis afirma contar atualmente com mais de 151 mil membros, oriundos de 80 países, e sustenta que as empresas fundadas por membros da sua comunidade têm uma avaliação conjunta superior a um bilião de euros. Estes números constam no site oficial do projeto, onde é também apresentada a “Declaração dos Cidadãos Fundadores do Império Praxis”, aprovada em novembro de 2024.

Uma nova forma de organização política

O documento fundador defende a superação das estruturas políticas tradicionais, consideradas limitadas pela geografia e incapazes de responder ao potencial humano. A Praxis proclama a intenção de criar um “Império da Rede”, uma civilização assente em valores partilhados, que existe tanto no espaço físico como no digital e que ambiciona estender-se para além da Terra.

O projeto garante que a criação desta nova entidade não implica confrontos com Estados existentes. Pelo contrário, apresenta-se como uma evolução pacífica, aberta a todos os que partilhem a sua visão e dispostos a integrar a comunidade.

Quem financia a Praxis

Apesar do discurso libertário, a Praxis conta com financiamento de peso. Um dos investidores mais destacados é Peter Thiel, figura central da chamada “máfia do PayPal” e um dos primeiros grandes nomes do Vale do Silício a apoiar Trump em 2016. Thiel é também defensor do seasteading, um conceito de cidades-estado flutuantes em águas internacionais.

O financiamento passa pela Pronomos Capital, um fundo de capital de risco associado a Thiel e fundado pelo neto do economista Milton Friedman. A Pronomos apoia projetos de cidades-modelo privadas e favoráveis aos negócios, sobretudo em países em desenvolvimento. No seu portefólio constam iniciativas em Palau, na Nigéria e nas Honduras, onde se destaca a cidade privada de Próspera, na ilha de Roatán.

Entre os colaboradores da Praxis encontra-se ainda uma empresa de capital de risco fundada por Marc Andreessen, empreendedor do Silicon Valley e antigo conselheiro tecnológico da administração Trump, de acordo com informações citadas pelo ’20 Minutos’.

Outros interesses na Gronelândia

A Praxis não é o único projeto interessado na Gronelândia. Outras empresas procuram explorar os recursos minerais da ilha, considerados cruciais para o desenvolvimento da inteligência artificial. É o caso da KoBold Metals, que utiliza algoritmos de IA para identificar depósitos de terras raras e metais estratégicos. A empresa já detém uma participação maioritária num projeto no sudoeste da Gronelândia, onde procura cobre e outros minerais essenciais.

A combinação de recursos naturais, potencial energético e baixa densidade populacional transforma a Gronelândia num território cada vez mais cobiçado, tanto por Estados como por projetos privados que pretendem redefinir conceitos de soberania e organização política. Andreessen também investiu na KoBold Metals. O mesmo fizeram magnatas da tecnologia como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos.

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